Does Macroeconomics Travel? — Curso Fase 3 de 5 · Nove leis sob o mesmo protocolo
Fase 3 · A primeira passada econométrica

Nove leis, nove vereditos:
a China no espelho do mundo

O coração empírico do projeto. Cada lei estimada país a país, com a mesma especificação, o mesmo filtro de dados e o mesmo grupo de comparação de 39 economias. Você vai ver a lei de Okun morrer num gráfico, a teoria quantitativa dobrar sem quebrar, e a assimetria entre consumo e investimento que se tornaria a assinatura do paper.

§

Antes de testar, validar

Se o método não recupera a lei nos EUA, ele não pode testá-la na China

O protocolo só ganha licença para julgar a China depois de passar por uma peneira: reproduzir os números da literatura no grupo de comparação. E ele passa. Okun: mediana de $\beta = -0{,}19$ entre avançadas (87% estatisticamente negativas) e $-0{,}15$ entre emergentes, colando com Ball–Leigh–Loungani. Moeda: a correlação de longo prazo entre crescimento monetário e inflação dá 0,945 em 147 países, o valor clássico de McCandless–Weber. Consumo: o excesso de sensibilidade mundial (λ mediano 0,79–0,95) na linha de Campbell–Mankiw. O cano está limpo. Agora, sim: as leis.


L1

Okun: a lei morre

Crescimento sem desemprego: uma diferença em gênero, não em grau

Lembre a forma: $\Delta u = \alpha + \beta g$ com $\beta < 0$. No mundo, $\beta$ vai de $-0{,}15$ (Japão) a $-0{,}85$ (Espanha); emergentes têm coeficientes menores, mas existem. Nos EUA, nossa estimação dá $\beta = -0{,}60$ com $R^2 = 0{,}64$: o crescimento explica dois terços do movimento do desemprego.

Na China: $\beta = -0{,}006$ (IC 95% de $[-0{,}035, +0{,}023]$, p = 0,69, $R^2 = 0{,}006$), com a série OIT de 1992 a 2024. Com a série nacional, $\beta = -0{,}031$ (p = 0,19). O crescimento chinês não carrega informação alguma sobre desemprego. Entre 2019 e 2022, o crescimento saltou de 6,1% para 2,3%, depois 8,6%, depois 3,1% — e o desemprego medido se moveu dentro de meio ponto. A China tem o coeficiente menos negativo das 39 economias: o valor-p de permutação atinge o limite matemático da amostra, 1/39 = 0,026.

Laboratório

A nuvem de Okun, país a país

Cada botão gera uma nuvem de pontos calibrada com os parâmetros estimados no estudo (simulação didática; os números oficiais estão nos painéis). Compare a inclinação nos EUA com a da China — e repare no que acontece com o $R^2$ quando a reta se deita.

cada ponto é um ano: crescimento do PIB (x) × variação do desemprego (y)
β (simulação)
—
R² (simulação)
—
país
—

Números do estudo — EUA: $\beta=-0{,}60$, $R^2=0{,}64$ (1992–2024). China: $\beta=-0{,}006$, p=0,69, $R^2=0{,}006$, coeficiente menos negativo das 39 economias (p de permutação 0,026).

Veredito

L1 — não vale na China

NÃO VALE  Diferença em gênero, não em grau: emergentes têm Okun menor que avançadas — a China não tem Okun. O mecanismo é a equação (1) da Fase 1: hukou ($m$) + empregadores estatais com dever de estabilização ($s$) esvaziam a relação. E há uma fresta dinâmica que a Fase 4 vai explorar: pós-2008, $\beta = -0{,}058$ (p = 0,045) — significativo pela primeira vez, ainda que um décimo do valor dos EUA.


L2

Phillips: o espelho que não enxerga

Uma lei fraca em casa não pode condenar ninguém longe

A forma aceleracionista: $\Delta\pi_t = \alpha + \beta\, u_t$, com $\beta < 0$ esperado. A validação falha: em dados anuais, só 4% das economias avançadas mostram $\beta$ significativamente negativo; nos EUA, $\beta = -0{,}10$ com p = 0,53. Uma relação que quase não existe no seu próprio território de origem não pode ser usada para dizer que a China é estranha. O ponto estimado da China ($-0{,}37$, IC de $[-3{,}4, +2{,}6]$) é inútil porque o regressor (desemprego) quase não varia — lembra a Fase 2?

Teste rápido

Por que reportar uma lei que “deu ruim” no mundo todo?

Ao incluir a Phillips, o estudo descobriu que ela é fraca em toda parte. Por que isso fortalece, em vez de enfraquecer, os demais vereditos?

A Porque mostrou que os dados estão errados em todos os países
B Porque demonstra que o protocolo não fabrica anomalias: quando a lei é fraca em todo lugar, o veredito honesto é “não identificável”
C Porque economias avançadas deviam ser excluídas da amostra
Exato. É o controle de qualidade do desenho: o mesmo protocolo que condena a China em Okun e comovimento absolve em Phillips — porque lá o problema é da lei, não do país. Veredito: NÃO IDENTIFICÁVEL.
Pelo contrário: é a prova de que o protocolo tem freio. Se ele “descobrisse” anomalias chinesas em toda lei, incluindo as frágeis no mundo inteiro, seria suspeito. Ao decretar NÃO IDENTIFICÁVEL, mostra que separa falha da lei de falha do país.

L3

Teoria quantitativa: dobra, não quebra

38 anos de moeda a 17,9% ao ano — e inflação de 4,5%

A identidade por trás da lei: $M \cdot V = P \cdot Y$ (moeda vezes velocidade = preços vezes produto). Em taxas de crescimento de longo prazo, inflação ≈ crescimento da moeda − crescimento real, se a velocidade for constante. Nos dados mundiais, a relação é fortíssima: correlação 0,945 entre crescimento monetário e inflação de longo prazo em 147 países (McCandless–Weber, replicado).

A China está na linha, mas num extremo dela. M2 cresceu 17,9% ao ano por 38 anos; inflação média de 4,5%; crescimento real de 8,7%. O resíduo da lei — inflação observada menos a prevista — é de −4,7 pontos por ano (percentil 16; p de permutação 0,23: cauda, mas não singular). A direção está certa; o tamanho aponta para uma queda grande e persistente da velocidade da moeda — compatível com a monetização de uma economia antes planejada e quatro décadas de aprofundamento financeiro.

Laboratório

Onde foi parar o dinheiro? A velocidade da moeda em ação

A China em azul: crescimento monetário em excesso de 9,2 p.p. ao ano (moeda 17,9% − produto real 8,7%). Se a velocidade fosse constante, a inflação esperada seria a própria leitura da reta. Arraste a queda tendencial da velocidade e veja o ponto descer até a inflação efetivamente observada (4,5%).

queda da velocidade (p.p./ano) 0.0
147 países (nuvem simulada) · reta: inflação prevista pela lei
inflação implícita
—
resíduo vs. lei
—
inflação observada
4,5%

Números do estudo: resíduo de −4,7 p.p. (percentil 16, p = 0,23); com a correção de crescimento de Chen et al. (Fase 4), o resíduo aprofunda para −7,2 — a anomalia não é artefato de medida. A lei vale em forma modificada: mecanismo presente + tendência de velocidade transitória por cima.

Veredito

L3 — vale, modificada

VALE MODIFICADA  Exatamente como o framework previa para uma lei de contabilidade de longo prazo que não passa por nenhuma margem administrada: o mecanismo funciona, com uma tendência específica de transição (velocidade caindo) por cima.


L4

Comovimento C×I: a falha assimétrica

Consumo normal, investimento morto — a assinatura do Estado estabilizador

No manual, consumo e investimento são ambos pró-cíclicos e andam juntos. O mundo confirma: correlação mediana entre os ciclos de consumo e investimento de $+0{,}58$ (avançadas) e $+0{,}54$ (emergentes); nos EUA, $+0{,}75$, com correlação investimento-produto de $+0{,}92$.

A China: −0,16 — perto do fundo da distribuição mundial (p de permutação 0,056, um país aquém do limite). Mas a decomposição vale mais que o número-manchete, porque é a restrição de sobreidentificação do framework: o ciclo do investimento não tem relação alguma com o do produto ($-0{,}02$: investimento acíclico), enquanto o ciclo do consumo é normal ($+0{,}67$). Uma economia simplesmente mal medida produziria os dois ciclos mortos — não um vivo e outro morto. Um Estado que usa o investimento como instrumento de estabilização, sim: 2009 e 2010 mostram o mecanismo em estado bruto. É o coração do achado de Chang et al. (2016), replicado com dados e método independentes.

Laboratório

Dois ciclos, três economias

Os componentes cíclicos (filtro HP) de consumo (dourado) e investimento (azul), calibrados com as correlações estimadas. Nos EUA, as duas linhas dançam juntas; na China, o investimento ignora o consumo — e ignora o próprio ciclo do produto.

ciclo do consumo ciclo do investimento  ·  1995–2024 (simulado)
corr(C,I) na simulação
—
corr(I,Y) estudo
—
corr(C,Y) estudo
—
Simulação

A equação (2): quem manda no ciclo do investimento?

Escreva o investimento como soma de uma parcela privada (peso $\omega$, sensibilidade pró-cíclica $\psi$) e uma parcela estatal que se estabiliza contra o ciclo (intensidade $\phi$). A circularidade do total tem o sinal de:

$$\text{coef. cíclico de } I \;=\; \omega\,\psi \;-\; (1-\omega)\,\phi \tag{2}$$
peso privado $\omega$ 0.90
estabilização estatal $\phi$ 0.20
coeficiente cíclico do investimento ($\psi=1$ fixo)
coeficiente
—
leitura
—

Presets implícitos: mercado ($\omega$ alto, $\phi$ baixo) → coeficiente fortemente positivo, como nos EUA; China ($\omega$ menor, $\phi$ alto) → coeficiente perto de zero ou negativo. A Fase 4 mostra a fresta dinâmica: corr(C,I) sobe de −0,37 (1995–2007) para +0,01 (2008–2024) — ainda longe da norma de +0,6.

Veredito

L4 — não vale na China, com a assinatura prevista

NÃO VALE  Investimento acíclico ($-0{,}02$ com o produto), consumo normal ($+0{,}67$), correlação C×I de −0,16 (percentil 9 da distribuição; p = 0,056). Robusto ao filtro de Hamilton (+0,13 vs. mediana +0,63). Falha exatamente na direção e no formato que a equação (2) previa.


L5

Renda permanente: o mundo inteiro rejeita, a China também

Um caso extremo de um padrão global — não uma violação

A hipótese estrita diz: o consumo de hoje depende da renda esperada ao longo da vida, não da renda de hoje. Campbell e Mankiw (1989) propuseram medir o quanto o consumo “cola” na renda corrente com o parâmetro $\lambda$: $\lambda = 0$ é o mundo da renda permanente (consumo suave); $\lambda = 1$ é o mundo hand-to-mouth (consumo igual à renda).

O resultado mundial: a rejeição é a norma. $\lambda$ mediano de 0,79 (avançadas) e 0,95 (emergentes). A China: $\lambda = 1{,}04$ por MQO, 0,81 por IV (primeiro estágio F = 14). E como instrumentos defasados são fracos em dados anuais, o estudo inverte o teste de Anderson–Rubin, válido mesmo com instrumentos fracos: o intervalo de 95% da China é $[0{,}29, 1{,}01]$ — exclui o zero (rejeição da hipótese estrita com p = 0,024), independente de viés de instrumento fraco.

Laboratório

O dial de $\lambda$: do consumo suave ao hand-to-mouth

A linha azul é a renda (com ciclos e solavancos); a linha vermelha é o consumo que resulta de misturar renda permanente suave e renda corrente na proporção $c = \lambda\,y + (1-\lambda)\,y^{perm}$. Arraste o dial até os marcos do estudo.

excesso de sensibilidade $\lambda$ 0.00
renda consumo  ·  simulação

O que distingue a China não é $\lambda$, e sim a taxa de poupança das famílias — um fato sobre níveis, com literatura institucional própria (o fardo privado com moradia, educação e saúde; Chamon–Prasad 2010). Por isso o veredito fala em “caso extremo do padrão global”, não em violação.

Veredito

L5 — a rejeição vale, como em todo lugar

VALE (A REJEIÇÃO DO PIH)  $\lambda$ chinês no alto da distribuição mundial (percentil alto, p de permutação 0,18 — dentro do padrão, não fora dele). A honestidade metodológica também aparece aqui: nos EUA, os instrumentos são irrelevantes em dados anuais (F = 0,9) e o conjunto AR é ilimitado; o estudo reporta isso em vez de esconder.


L6

Crédito e desaceleração: o caso que ficaria aberto

Um cluster tratado não faz inferência

Schularick–Taylor (2012) e Mian–Sufi–Verner (2017): booms de crédito privado antecedem crises e crescimento futuro menor. No painel do estudo, a relação aparece: crescimento médio dos três anos seguintes sobre a variação quinquenal do crédito/PIB dá $\beta = -0{,}013$ (p = 0,054) com efeitos fixos de país e ano; $-0{,}009$ (p = 0,047) com tendências por país.

E a China? A interação é grande e negativa — mas é identificada a partir de um único cluster tratado cujo crescimento cai enquanto o crédito sobe, exatamente a configuração que a Fase 1 marcou como non grata. O que se pode dizer sem inferência frágil: o crédito privado chinês chegou a 194% do PIB em 2024 — patamar que em outros lugares veio com crise, e que lá ainda não produziu uma, plausivelmente porque o balanço do Estado absorve o que em outra economia seria uma corrida (Brunnermeier–Sockin–Xiong 2022). INCONCLUSIVO


L7

Wagner: o Estado cresce, mas a régua errada mede pouco

Elasticidade de um terço do padrão — com ressalva que joga a favor da China

Regressões intra-país do log da participação do consumo do governo no PIB sobre o log da renda per capita: elasticidade mediana de $+0{,}27$ (avançadas, 70% significativas) e $+0{,}24$ (emergentes). A China: $+0{,}08$ — significativa, mas cerca de um terço do tamanho típico (percentil baixo, p de permutação 0,23).

A ressalva é honesta e corre a favor da China: consumo do governo é a régua errada para um Estado que age via investimento público e veículos extraorçamentários — provavelmente subestima quanto o Estado chinês cresceu. A lacuna de mensuração é visível nos próprios dados: a série de despesa consolidada do governo do WDI simplesmente não existe para a China. VALE MODIFICADA


L8

Convergência: outlier de resíduo, não de lei

O milagre é o crescimento, não a quebra da relação

Convergência incondicional é fraca no mundo: $\beta = -0{,}32$ com $R^2 = 0{,}08$ em 159 países (1980–2019) — e essa fraqueza é o padrão histórico documentado por Kremer–Willis–You (2022). A China não dobra essa relação. Ela é o extremo dela como resíduo: crescimento per capita de 8,1% contra 2,1% previstos pelo seu ponto de partida — seis pontos por ano, o maior resíduo da amostra (Coreia em segundo, com quatro).

Gráfico

A reta da convergência e os dois milagres

Nuvem esquemática (posições ilustrativas; coeficientes do estudo): renda inicial (x, escala log) contra crescimento 1980–2019 (y). A China e a Coreia estão acima da reta — milagres de crescimento — mas a inclinação da relação é a mesma do resto do mundo.

159 países (nuvem simulada) · $\beta = -0{,}32$, $R^2=0{,}08$
Veredito

L8 — vale como no mundo

VALE COMO NO MUNDO  O que precisa de explicação é o resíduo (o milagre), objeto da literatura de crescimento — não a inclinação da lei. Como a inclinação é um coeficiente único cross-country, e não uma estatística país a país, a L8 não entra em índices nem ganha p de permutação.


L10

Parcela do trabalho: dois dados, duas histórias

Quando o veredito é um artefato do esquema de imputação

Na Penn World Table 10.01, a parcela do trabalho na China é… comum: tendência de $-0{,}6$ ponto por década, percentil 54 da distribuição (mediana das avançadas: $-1{,}5$), dentro do declínio global documentado por Karabarbounis–Neiman (2014); p de permutação 0,79 — a inferência de randomização confirma a não-falha em vez de fabricar uma falha. Mas Chang et al. (2016), com as contas nacionais chinesas, documentam uma queda forte.

A explicação provável é mecânica e instrutiva: a PWT imputa a renda do trabalho por conta própria — que é a maior parte do trabalho agrícola chinês — com pressupostos que suavizam exatamente a mudança estrutural que gera a queda nas contas nacionais. Moral para a macro comparada: em economias em transição, um veredito pode ser artefato do esquema de imputação. DEPENDE DA FONTE


⚙

A primeira passada, em uma tabela

Vereditos provisórios — pendentes de robustez (Fase 4)
Tabela

Nove leis, nove vereditos (com p de permutação onde há estatística país a país)

LeiChina vs. mundop perm.Veredito
L1 Okunβ=−0,006 contra −0,15 a −0,600,026NÃO VALE
L2 Phillipsfraca no mundo todo; regressor sem variação—NÃO IDENTIFICÁVEL
L3 Quantitativaresíduo −4,7 p.p. (percentil 16)0,23VALE MODIFICADA
L4 Comovimentocorr C×I −0,16; investimento acíclico0,056NÃO VALE
L5 Renda permanenteλ=1,04; AR [0,29; 1,01] exclui 00,18REJEITA PIH, COMO O MUNDO
L6 Créditocrédito/PIB 194% sem crise; 1 cluster tratado—INCONCLUSIVO
L7 Wagnerη=+0,08 contra +0,24 a +0,270,23VALE MODIFICADA
L8 Convergênciaresíduo +6,0 p.p./ano (percentil 100)—VALE COMO NO MUNDO
L10 Parcela do trabalhoPWT: típica; contas nacionais: queda forte0,79DEPENDE DA FONTE
ⓘ Olhe o padrão, não só a lista. As duas falhas cabais (L1, L4) são exatamente as leis que passam pelas margens administradas — trabalho de curto prazo e investimento. As de longo prazo dobram (L3, L7) ou seguem o mundo (L5, L8). E três vereditos de honestidade (L2, L6, L10) mostram o protocolo se policiando. Mas nada disso está seguro enquanto a suspeita de dados ruins estiver no ar — é aí que entra a Fase 4.

O que levamos para a Fase 4: duas falhas dramáticas e seletivas, quatro sobrevivências com estilo, três vereditos de honestidade — e uma objeção inteira por responder: “tudo bem, mas os dados chineses são confiáveis?”. A resposta vai vir em forma de bracketing bidirecional, placebo e subamostras.