Economia
Ambiental
Aula 02 · Externalidades, resíduos e o nível ótimo de poluição
Aula 02 · Nota de revisão
Externalidades, resíduos e o nível ótimo de poluição
Nota de revisão gerada a partir das anotações de aula. A nota original está
em "Notas Humanas/Aula 02" (Obsidian). Esta aula cumpre a promessa da
Aula 01: como precificar e encontrar o
nível de degradação eficiente.
— Ronaldo Seroa, UERJ
2.1Preliminares: quem decide e quem paga
- Noção de voto do Becker: distingue o voto do
eleitor (na urna) do voto de quem apoia (grupos de
pressão, financiamento, lobby). Política ambiental não é decidida só nas
urnas — ver a nota "Becker e o voto político".
- Desigualdade da degradação: gasto de diesel por
família — famílias mais ricas consomem (e poluem) mais. A degradação também
é distribuída desigualmente: quem mais contribui nem sempre é quem mais
sofre.
⚠️ Verificar
"Cultura é um bem de luxo" — a demanda por cultura (e,
por analogia, por meio ambiente) cresce mais que proporcionalmente à renda.
Isso conecta com a Curva de Kuznets: países ricos
"compram" mais ambiente. A aula ficou com a pergunta em aberto: quem
diz isso? Vale checar a referência.
2.2Medindo externalidades negativas
A identidade fundamental da aula:
CS = CP + CE
Definição
Custo social = custo privado + custo externo. O
custo privado é uma subdimensão do custo
social — é a parte que o produtor/consumidor enxerga e paga. Na margem:
CSMg ≥ CPMg — o custo social marginal é sempre
pelo menos tão grande quanto o privado.
CSMg ≥ CPMg
O problema central: o mercado sozinho equilibra no ponto
X₁ (olhando só o custo privado). O equilíbrio
eficiente é X₂ (olhando o custo social), com
quantidade menor. A política ambiental é a resposta à
pergunta: como levar a economia de X₁ para
X₂?
- Externalidades pecuniárias vs. não pecuniárias (⚠️
marcado como "ver diferenças"): pecuniárias operam via
preços (a ação de um afeta o preço que outro paga — não há
ineficiência a corrigir); não pecuniárias operam
fora do mercado (a fumaça que entra na sua janela sem
passar por nenhum preço) — são estas as verdadeiras externalidades que geram
falha de mercado.
Intuição
Se meu consumo de café encarece o café para você, o mercado já cobrou
essa conta. Se minha fábrica polui seu ar, ninguém te pagou nada — a conta
ficou de fora.
2.3Poluição é resíduo
- Gap ecológico: os resíduos vão subindo com a produção —
poluição é resíduo, o que sobra do processo produtivo e não
tem destino no mercado.
Exemplo
A nafta (derivada de petróleo) ficou muito barata →
produzir plástico ficou muito barato → a montanha de resíduo plástico.
Preço baixo do insumo = externalidade barata de gerar.
A curva central da aula: Produção × Resíduos, Custos e Benefícios
No gráfico com nível de produção no eixo horizontal:
- Benefícios (do consumo/produção) sobem, mas a taxa
decrescente;
- Custos (incluindo os danos dos resíduos) sobem de forma
crescente;
- Capacidade de absorção: corpos humanos, organismos e
ecossistemas absorvem uma certa quantidade de resíduo sem dano — até certo
ponto.
Disso saem dois "ótimos" diferentes, e a tensão entre eles é o coração da
aula:
| Ótimo |
O que é |
| Ótimo ecológico | A quantidade de resíduo que a natureza consegue absorver — produzir além disso estressa o sistema |
| Ótimo de Pareto (econômico) | O que as preferências reveladas no mercado determinam — onde benefício marginal = custo marginal |
- Não-pareto relevante: situações em que custo >
benefício mas ninguém tem incentivo a mudar — fora do radar do mercado.
- Estressar a curva além do ótimo: os custos externos
ficam maiores que os benefícios e a resiliência do sistema
é reduzida — o ecossistema perde a capacidade de se recuperar.
2.4A taxa de desconto decide qual ótimo vence
- Conclusão da aula: a escolha entre ficar mais perto do
ótimo ecológico ou do ótimo econômico
depende da taxa de desconto da sociedade. Compara-se o
somatório de custos e benefícios ao longo do tempo nos dois
casos.
- Colocar a curva de custos futuros no gráfico
inclina a análise: os custos que parecem aceitáveis hoje
crescem no tempo, empurrando o ótimo para níveis menores de degradação.
Intuição
Taxa de desconto alta = "o futuro vale pouco" → vale extrair e poluir
agora (ótimo econômico de curto prazo). Taxa baixa = "o futuro importa" →
vale preservar (puxa para o ótimo ecológico).
Exemplo
A pergunta das civilizações: por que egípcios e maias
adotaram estratégias que eles sabiam que colapsariam em 100
anos? Resposta candidata: taxa de desconto alta + quem decide não é quem
paga (Becker de novo).
2.5Recursos renováveis: por que pescadores são pobres?
Pergunta dos economistas dos anos 80: por que pescadores são
pobres? Resposta da teoria dos recursos renováveis:
- Com acesso livre (mar aberto, sem dono), cada pescador
pesca o máximo — se ele poupar o peixe, outro pesca no lugar.
- Se a atividade fica pouco atraente, as pessoas desistem antes
que o recurso acabe — o que salva o estoque não é a cooperação, é a
fuga.
- Não há colaboração voluntária espontânea entre
competidores.
- O recurso geraria renda apenas se fosse privatizado ou
regulado (tirando o acesso livre) — mas fazer isso no mar é
muito complicado.
Intuição
É o mesmo problema da externalidade, mas no tempo e no estoque — cada
pescador impõe aos outros um custo (menos peixe amanhã) que não paga. Sem
preço, sem dono, sem freio.
2.6O caminho da política: precificar para chegar ao ótimo
- Economistas olham para produção ou consumo — é ali que
se pode agir.
- Primeiro desafio prático: calcular a função de
dano (ou função de impacto) — quanto custa, em dinheiro, cada
unidade a mais de poluição. Sem ela, não há preço correto.
- Empresas só reduzem danos se houver ganho para elas —
daí a necessidade de fazer a externalidade "entrar na conta" (imposto,
mercado de licenças, regulação).
- Escola Austríaca: com inspirações em Darwin, Freud e
Newton, lembra que preferências são diferentes — há
altruístas e egoístas. A política não pode depender de boa vontade; tem que
funcionar para o egoísta também.
- Objetivo final: precificar as externalidades de forma a levar ao
ótimo.
2.7⚠️ IMPORTANTE — o papel do progresso técnico
⚠️ Importante
Na curva de resíduos da aula, o progresso técnico está
dado (fixo). Ou seja: a curva mostra o trade-off com a tecnologia
de hoje.
A Curva de Kuznets ambiental acontece quando a
economia consegue derrubar a própria curva de resíduos —
tornar-se mais eficiente, emitindo menos resíduo por unidade produzida. O
turning point não é "ficar rico e se importar"; é mudar a
tecnologia que gera o resíduo.
Intuição
A curva da seção 2.3 é estática (foto com a tecnologia de hoje). Kuznets
é dinâmico (filme em que a tecnologia melhora). As duas aulas se encaixam
assim.
Mapa rápido de revisão
| Conceito |
Ideia-chave |
| Custo Social | CS = CP + CE; CSMg ≥ CPMg |
| X₁ → X₂ | Do equilíbrio privado ao social: produzir menos |
| Externalidade não pecuniária | A que passa fora do mercado — é a falha de mercado de verdade |
| Ótimo ecológico × Pareto | Absorção da natureza × preferências reveladas |
| Taxa de desconto | Decide qual ótimo vence; explica civilizações suicidas |
| Pescadores pobres | Acesso livre → sem colaboração → esgotamento até desistência |
| Função de dano | Primeiro desafio prático para precificar |
| Kuznets (conexão) | É a curva de resíduos caindo por progresso técnico |
Perguntas para fixar
- Por que uma externalidade pecuniária não gera
ineficiência?
- Se a taxa de desconto da sociedade cair, o que acontece com o nível
ótimo de poluição escolhido?
- O que diferencia o ótimo ecológico do ótimo de Pareto — e quando eles
coincidem?