Economia
Ambiental

Aula 01 · Contexto histórico e fundamentos

Prof. Ronaldo Seroa da Motta
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO · UERJ
Notas de aula elaboradas por Lucas R. Andrade
Aula 01 · Nota de revisão

Contexto histórico e fundamentos


Nota de revisão gerada a partir das anotações de aula. A nota original está em "Notas Humanas/Aula 01" (Obsidian). — Ronaldo Seroa, UERJ

1.1O problema nasce na economia clássica

A preocupação com limites ambientais não é nova — ela atravessa a história do pensamento econômico:

Intuição

A previsão de Jevons falhou não porque a lógica estivesse errada, mas porque apareceu um substituto. Essa tensão — recurso acaba vs. tecnologia substitui — é o coração da disciplina até hoje.

1.2O século XX: de problema local a problema internacional

Por que CFC foi (relativamente) fácil e clima não?

Os CFCs eram produzidos por 10–15 fábricas no mundo. Controlar meia dúzia de plantas é viável. Já o CO₂ vem de milhões de fontes — fábricas, carros, usinas. É por isso que o Protocolo de Montreal (CFCs) funcionou e o problema do clima arrasta décadas de negociação.

Visualização · CFC vs CO₂
CFC — ~15 fábricas no mundo
CO₂ — milhões de fontes

Cada ponto é uma fonte de emissão. Com ~15 pontos, dá para sentar todo mundo na mesa e fiscalizar um a um — por isso o Protocolo de Montreal funcionou. Com milhões de fontes, não há mesa que dê conta: é o drama das negociações de clima.

1.3O Brasil nesse tabuleiro

⚠️ Verificar

China: fica de fora desse arranjo — a anotação da aula ficou marcada como VERIFICAR o que isso significa exatamente.

1.4As respostas teóricas

Economia Ecológica

Corrente que queria um paradigma diferente da welfare economics (economia do bem-estar neoclássica): em vez de encaixar o ambiente nos modelos existentes, repensar a economia dentro dos limites do ecossistema.

Recursos exauríveis

Definição

Backstop technology: uma tecnologia hoje muito cara, que se torna viável quando o recurso escasseia e o preço sobe. É a "saída de emergência" — quando o petróleo ficar caro o suficiente, a alternativa aparece.

Hotelling e a renda de escassez

Voltando a Ricardo: o preço de um recurso exaurível é

P = Cmg + renda de escassez

Ou seja: além do custo marginal de extração, cobra-se algo a mais porque o recurso vai acabar — quem extrai hoje abre mão de extrair (mais caro) no futuro. Detalhes no Lema de Hotelling.

Exemplo

Exemplo intuitivo da aula: o motorista de Uber deveria cobrar pensando que o carro vai se desgastar/quebrar — ou precificar considerando a troca de indústria. O desgaste do ativo entra no preço, como a escassez entra no preço do recurso.

Simulação · Hotelling e a backstop

O preço do recurso é P = Cmg + renda de escassez, e a renda de escassez cresce à taxa de juros (regra de Hotelling). Quando P atinge o teto da backstop (linha dourada), a tecnologia alternativa vira viável e o preço para de subir — a "saída de emergência". Junte os sliders e veja como juros altos antecipam o encontro com a backstop.

O caso da Noruega

O famoso fundo soberano norueguês funcionou por sorte: a ideia original do fundo não era poupar a renda do petróleo para as futuras gerações, e sim estabilizar preços. O resultado virtuoso veio de tabela.

Sustentabilidade neoclássica

A resposta neoclássica ao esgotamento é o progresso técnico. Modelo com função de produção:

Y = Ka · Rb · Lc

onde K é capital, R são recursos naturais e L é trabalho.

Simulação · Função de produção Y = Ka · Rb · Lc

Y = —

Expoentes fixos (a = 0,35; b = 0,30; c = 0,35). No modelo neoclássico puro, R pode cair quase a zero que Y se segura — o capital compensa. Agora ligue "K depende de R" e arraste R para baixo: o capital rui junto com o recurso natural e o produto desaba. É a crítica de Perrings, Faly e Pearce — K não existe independentemente de R.

1.5Valor e comportamento

Exemplo

O experimento da caneca: sorteia-se uma caneca entre os participantes. Quem a recebe passa a exigir um valor muito maior para vendê-la do que pagaria por ela antes. O objeto ganha um valor intrínseco/simbólico só por ser "meu". Analogia: as pessoas atribuem valor à natureza mesmo sem "usá-la".

Experimento · A caneca (WTP × WTA)
Quanto pagaria por ela (WTP)
R$ 15
Quanto exigiria para vendê-la (WTA)
—
Você ainda não tem a caneca.

Clique no botão para "ganhar" a caneca. Antes de ela ser sua, você pagaria pouco (WTP). Depois que ela é sua, você exige muito mais para abrir mão dela (WTA) — o objeto ganha valor intrínseco só por ser "meu". É a demonstração empírica do valor de existência.

1.6Curva de Kuznets Ambiental

Atenção

Ressalva importante da aula: o turning point já aconteceu para problemas urbanos (água, saneamento, ar local). Para problemas como mudança do clima e extinção de espécies, o processo demora muito — e pode não haver tempo de esperar a curva virar sozinha.

Simulação · Curva de Kuznets Ambiental

Degradação (eixo vertical) × renda per capita (eixo horizontal). Mova o slider — ou use os botões — para escolher onde a curva vira. Para problemas urbanos, o turning point vem cedo e o país "fica rico o bastante" para limpar. Para clima e extinção, ele fica longe demais: pode não dar tempo de a curva virar sozinha.

1.7Poupança e capital natural

Atkinson & Pearce (1993): a sustentabilidade pode ser lida como um problema de poupança — é preciso manter o estoque total de capital (capital produzido + capital natural). Quanto do capital natural pode ser convertido em outras formas de capital sem empobrecer o futuro?

1.8Próxima aula

Próxima aula

Como precificar o ambiente e encontrar o nível de degradação eficiente — a ponte entre a teoria desta aula e a política ambiental concreta.

Mapa rápido de revisão

Conceito Ideia-chave
JevonsRecurso limitado trava crescimento (falhou por causa do petróleo)
CFC vs CO₂Poucas fontes = fácil regular; milhões de fontes = difícil
BackstopTecnologia cara que vira viável quando o recurso encarece
HotellingP = Cmg + renda de escassez
Kuznets AmbientalPoluição sobe e depois cai com a renda — mas nem sempre a tempo
Atkinson & PearceSustentabilidade como poupança: capital + capital natural