Economia
Ambiental
Aula 01 · Contexto histórico e fundamentos
Aula 01 · Nota de revisão
Contexto histórico e fundamentos
Nota de revisão gerada a partir das anotações de aula. A nota original está
em "Notas Humanas/Aula 01" (Obsidian).
— Ronaldo Seroa, UERJ
1.1O problema nasce na economia clássica
A preocupação com limites ambientais não é nova — ela atravessa a história
do pensamento econômico:
- Ricardo: já questionava as condições urbanas e
industriais do seu tempo. Mais importante para nós: sua ideia de
renda de escassez volta depois no Lema de Hotelling.
- Jevons (The Coal Question, 1865): duvidava que
o crescimento pudesse continuar dependendo do carvão, um recurso limitado. A
lógica era malthusiana aplicada à energia — um "malthusiano de
energia". Com a chegada do petróleo, Jevons pareceu errado: a
economia trocou de recurso e seguiu crescendo.
Intuição
A previsão de Jevons falhou não porque a lógica estivesse errada, mas
porque apareceu um substituto. Essa tensão — recurso acaba vs. tecnologia
substitui — é o coração da disciplina até hoje.
1.2O século XX: de problema local a problema internacional
- Limites do Crescimento (relatório do Clube de Roma,
1972): marco que colocou a questão do crescimento com recursos finitos no
debate público.
- EPA (agência ambiental americana): no começo
não protegia a natureza em si — protegia apenas humanos que
ficassem doentes. O meio ambiente importava enquanto afetava pessoas.
- OECD: criada a lógica de revisões de desempenho
ambiental entre países, com a ideia de não cometer os mesmos
erros dos que se desenvolveram antes.
- Poluição transfronteiriça — chuva ácida, casos no Golfo
— mostrou que o problema não cabe nas fronteiras nacionais. Nasce a
pergunta: existe um órgão global para isso? O problema se
internacionaliza e se politiza/polariza em torno do "sustainable
growth".
Por que CFC foi (relativamente) fácil e clima não?
Os CFCs eram produzidos por 10–15 fábricas no mundo.
Controlar meia dúzia de plantas é viável. Já o CO₂ vem de milhões de
fontes — fábricas, carros, usinas. É por isso que o Protocolo de
Montreal (CFCs) funcionou e o problema do clima arrasta décadas de
negociação.
1.3O Brasil nesse tabuleiro
- Época do milagre econômico: a postura dominante era
"poluo, mas produzo" e "o Brasil é pobre demais
para pensar em meio ambiente". Ambiente era visto como luxo de país
rico.
- Rio-92 (ECO-92): a ONU traz a conferência para o Rio de
Janeiro e o Brasil entra no centro do debate.
- Itamaraty desenvolvimentista (Sarney/Collor):
estratégia de dar ênfase ao clima para sufocar o foco na
floresta — o desmatamento era alto e constrangedor. Falar
de clima desviava o holofote e rendia "soft power".
- Matriz energética: o Brasil tinha (e tem) um argumento
real — hidrelétricas e álcool são relativamente melhores
que carvão e petróleo.
- IBAMA: criado juntando vários órgãos, no modelo
francês.
- "Desmato para produzir": não há evidências dessa
relação como regra geral; a grosso modo, o argumento é "razoável" no caso da
Mata Atlântica (historica).
- Detalhe institucional: a COP é do clima; a convenção de
desertificação anda bem mais devagar.
⚠️ Verificar
China: fica de fora desse arranjo — a anotação da aula
ficou marcada como VERIFICAR o que isso significa
exatamente.
1.4As respostas teóricas
Economia Ecológica
Corrente que queria um paradigma diferente da
welfare economics (economia do bem-estar neoclássica): em vez de
encaixar o ambiente nos modelos existentes, repensar a economia dentro dos
limites do ecossistema.
Recursos exauríveis
- Theory of Exhaustible Resources: livro datado, mas importante
na época.
- Distinção fundamental: reservas físicas (o que existe
no subsolo) ≠ reservas econômicas (o que vale a pena
extrair ao preço e à tecnologia atuais). O recurso "acabar" economicamente
vem antes de acabar fisicamente.
Definição
Backstop technology: uma tecnologia hoje muito
cara, que se torna viável quando o recurso escasseia e o preço
sobe. É a "saída de emergência" — quando o petróleo ficar caro o suficiente,
a alternativa aparece.
Hotelling e a renda de escassez
Voltando a Ricardo: o preço de um recurso exaurível é
P = Cmg + renda de escassez
Ou seja: além do custo marginal de extração, cobra-se algo a mais
porque o recurso vai acabar — quem extrai hoje abre mão de
extrair (mais caro) no futuro. Detalhes no Lema de Hotelling.
Exemplo
Exemplo intuitivo da aula: o motorista de Uber deveria cobrar pensando
que o carro vai se desgastar/quebrar — ou precificar considerando a troca de
indústria. O desgaste do ativo entra no preço, como a escassez entra no
preço do recurso.
O caso da Noruega
O famoso fundo soberano norueguês funcionou por sorte: a
ideia original do fundo não era poupar a renda do petróleo
para as futuras gerações, e sim estabilizar preços. O
resultado virtuoso veio de tabela.
Sustentabilidade neoclássica
A resposta neoclássica ao esgotamento é o progresso
técnico. Modelo com função de produção:
Y = Ka · Rb · Lc
onde K é capital, R são
recursos naturais e L é trabalho.
- Perrings, Faly, Pearce: é difícil defender que os
recursos acabam mais rápido que o crescimento quando K depende de R — o capital humano e o técnico não existem
independentemente do natural.
- A pergunta que fica: qual o R ótimo? (E a questão em
aberto de endogenous technical change.)
- Rio+20 / PNUMA 2011: simulações mostravam que, com
restrições ambientais, o PIB cairia primeiro e subiria
depois — custo de curto prazo, ganho de longo.
1.5Valor e comportamento
- Economia comportamental conseguiu demonstrar
empiricamente o valor de existência: as coisas valem mesmo
sem uso direto.
Exemplo
O experimento da caneca: sorteia-se uma caneca entre os
participantes. Quem a recebe passa a exigir um valor muito maior para
vendê-la do que pagaria por ela antes. O objeto ganha um valor
intrínseco/simbólico só por ser "meu". Analogia: as
pessoas atribuem valor à natureza mesmo sem "usá-la".
1.6Curva de Kuznets Ambiental
- Kuznets (original): relação quadrática
entre renda e distribuição de renda — a desigualdade primeiro sobe, depois
cai com o crescimento (curva em U invertido).
- Kuznets Ambiental: mesma ideia para poluição —
degradação cresce com a renda até um ponto de inflexão
(turning point), a partir do qual o país "fica rico o bastante"
para limpar.
- Exemplos clássicos: os rios Tâmisa e
Sena, poluídos na industrialização e recuperados
depois.
Atenção
Ressalva importante da aula: o turning point já aconteceu para
problemas urbanos (água, saneamento, ar local). Para
problemas como mudança do clima e extinção de espécies, o
processo demora muito — e pode não haver tempo de esperar a
curva virar sozinha.
1.7Poupança e capital natural
Atkinson & Pearce (1993): a sustentabilidade pode ser
lida como um problema de poupança — é preciso manter o
estoque total de capital (capital produzido + capital
natural). Quanto do capital natural pode ser convertido em outras
formas de capital sem empobrecer o futuro?
1.8Próxima aula
Próxima aula
Como precificar o ambiente e encontrar o nível de degradação
eficiente — a ponte entre a teoria desta aula e a política
ambiental concreta.
Mapa rápido de revisão
| Conceito |
Ideia-chave |
| Jevons | Recurso limitado trava crescimento (falhou por causa do petróleo) |
| CFC vs CO₂ | Poucas fontes = fácil regular; milhões de fontes = difícil |
| Backstop | Tecnologia cara que vira viável quando o recurso encarece |
| Hotelling | P = Cmg + renda de escassez |
| Kuznets Ambiental | Poluição sobe e depois cai com a renda — mas nem sempre a tempo |
| Atkinson & Pearce | Sustentabilidade como poupança: capital + capital natural |