Microeconomia III – Parte 1
Aluno: Lucas Rafael de Andrade
Equilíbrio Geral, Incerteza e Mercados de Ativos. Material baseado em MWG caps. 15, 16 e 19.
1.1 Setup e Caixa de Edgeworth
Uma economia de trocas puras com \(I\) consumidores e \(L\) bens é descrita por:
- Preferências \(\succcurlyeq_i\) sobre \(\mathbb{R}^L_+\), representadas por \(u_i\).
- Dotações iniciais \(\omega_i \in \mathbb{R}^L_+\), com dotação agregada \(\bar\omega_\ell = \sum_i \omega_{\ell i}\).
- Um vetor de preços \(p = (p_1,\dots,p_L) \in \mathbb{R}^L_+\).
No caso \(I=2\), \(L=2\) a Caixa de Edgeworth representa geometricamente todas as alocações factíveis: um retângulo \([0,\bar\omega_1]\times[0,\bar\omega_2]\), com a perspectiva do consumidor 1 medida a partir do canto inferior-esquerdo e a do consumidor 2 a partir do superior-direito.
1.2 Maximização de Utilidade
O conjunto orçamentário do consumidor \(i\) a preços \(p\) é \[B_i(p) = \{x_i \in \mathbb{R}^L_+ : p\cdot x_i \leq p\cdot\omega_i\}.\] Sob Não-Saciedade Local (LNS), a restrição é satisfeita com igualdade no ótimo.
Cobb-Douglas
Para \(u_i(x_1,x_2) = x_1^\alpha x_2^\beta\) com \(\alpha,\beta>0\), a solução interior satisfaz:
Dividindo: \(\dfrac{\alpha}{\beta}\cdot\dfrac{x_2}{x_1} = \dfrac{p_1}{p_2}\). Combinando com a restrição orçamentária \(w_i = p_1 x_1+p_2 x_2\):
A proporção da renda gasta em cada bem é constante (propriedade cardinal das preferências CD).
\(u_A = x_1^{1/4}x_2^{3/4}\), \(\omega_A = (12,0)\). Renda: \(w_A = 12p_1\).
\[x_{1A} = \frac{1/4}{1}\cdot\frac{12p_1}{p_1} = 3, \qquad x_{2A} = \frac{3/4}{1}\cdot\frac{12p_1}{p_2} = \frac{9p_1}{p_2}.\]Note que \(x_{1A}=3\) independe de preços (renda proporcional a \(p_1\) cancela).
Leontief: \(u = \min\{ax_1, bx_2\}\)
O ótimo ocorre no kink da curva de indiferença, onde \(ax_1 = bx_2\), ou seja, \(x_2 = (a/b)x_1\). Substituindo na restrição orçamentária:
Para \(u = \min\{x_1,x_2\}\) (\(a=b=1\)): \(x_1^* = x_2^* = w_i/(p_1+p_2)\).
A Cobb-Douglas nunca tem solução de canto quando \(p\gg 0\), pois \(u(0,x_2) = 0\) e qualquer alocação com \(x_1,x_2>0\) gera utilidade positiva. Sempre verifique se há soluções de canto quando a utilidade de canto iguala a de interior.
1.3 Equilíbrio Walrasiano
Um par \((p^*, x^*)\) é um equilíbrio walrasiano se:
- Para cada \(i\): \(x_i^* \in \arg\max_{x_i \in B_i(p^*)} u_i(x_i)\) (otimização individual).
- Mercados se equilibram: \(\displaystyle\sum_i x_{\ell i}^* = \bar\omega_\ell\) para todo \(\ell\) (factibilidade com igualdade).
Lei de Walras
Se cada consumidor satisfaz a restrição orçamentária com igualdade (LNS), então para quaisquer preços \(p\):
\[\sum_{\ell=1}^L p_\ell\!\left(\sum_i x_{\ell i}(p) - \bar\omega_\ell\right) = 0.\]Corolário: Se \(L-1\) mercados estão em equilíbrio e \(p\gg 0\), o \(L\)-ésimo também está. Basta encontrar o preço relativo usando um único mercado.
Continuando a Questão 1 da prova: Bruna tem \(u_B = \min\{x_1,x_2\}\), \(\omega_B=(0,12)\), logo \(x_{1B}=x_{2B}\) na solução interior.
Passo 1: Da factibilidade do bem 1: \(x_{1A}+x_{1B}=12 \Rightarrow 3+x_{1B}=12 \Rightarrow x_{1B}=9\).
Passo 2: Da maximização de Bruna: \(x_{2B}=x_{1B}=9\).
Passo 3: Da factibilidade do bem 2: \(x_{2A}=12-9=3\).
Passo 4: Da demanda de Andrea pelo bem 2: \(x_{2A}=\tfrac{9p_1}{p_2}=3 \Rightarrow \tfrac{p_1}{p_2}=\tfrac{1}{3}\).
Equilíbrio: \(p^*=(p_2/3, p_2)\), \(x^*=((3,3),(9,9))\).
Análise de Equilíbrios de Canto
É essencial verificar sistematicamente todos os casos de preços-limite. O procedimento padrão:
| Caso | O que verificar | Conclusão típica |
|---|---|---|
| \(p_1,p_2>0\) | Solução interior | Caso genérico |
| \(p_1=0, p_2>0\) | Demanda de cada agente pelo bem 1 | Geralmente viola factibilidade |
| \(p_1>0, p_2=0\) | Demanda pelo bem 2 →∞? | Geralmente viola factibilidade |
| \(p_1=p_2=0\) | Nenhum tem renda; verificar indiferença | Pode existir equilíbrio de canto |
1.4 Ótimo de Pareto e Curva de Contrato
Com preferências estritamente convexas e interiores, o ótimo de Pareto se caracteriza pela tangência das curvas de indiferença: \[\text{TMS}_1(x_1^*,x_2^*) = \text{TMS}_2(x_1^*,x_2^*),\] onde \(\text{TMS}_i = -\partial u_i/\partial x_1 \div \partial u_i/\partial x_2\).
O conjunto de todos os ótimos de Pareto no interior da caixa de Edgeworth é a curva de contrato.
1.5 Teoremas Fundamentais do Bem-Estar
Se as preferências são LNS e \((p^*,x^*)\) é um equilíbrio walrasiano, então \(x^*\) é Pareto-ótimo.
Por contradição. Suponha \(x'\) factível que Pareto-domina \(x^*\).
- Para \(i_0\) com preferência estrita: \(x'_{i_0} \succ_{i_0} x^*_{i_0}\). Como \(x^*_{i_0}\) maximiza \(u_{i_0}\) no conjunto orçamentário, qualquer coisa estritamente preferida está fora do orçamento: \(p^*\cdot x'_{i_0} > p^*\cdot\omega_{i_0}\).
- Para \(i \neq i_0\) com \(x'_i \succcurlyeq_i x^*_i\): Suponha \(p^*\cdot x'_i < p^*\cdot\omega_i\). Pela LNS, existe \(x''\) próximo de \(x'_i\) com \(x''\succ x'_i \succcurlyeq x^*_i\) e \(x''\in B_i(p^*)\), contradizendo a otimalidade de \(x^*_i\). Logo \(p^*\cdot x'_i \geq p^*\cdot\omega_i\).
- Somando sobre \(i\): \(p^*\cdot\sum_i x'_i > p^*\cdot\sum_i\omega_i = p^*\cdot\bar\omega\).
- Contradição: A factibilidade de \(x'\) impõe \(\sum_i x'_{\ell i} \leq \bar\omega_\ell\) e \(p^*\gg 0\), logo \(p^*\cdot\sum_i x'_i \leq p^*\cdot\bar\omega\). Absurdo. \(\square\)
Se as preferências são LNS, contínuas e estritamente convexas, então qualquer alocação Pareto-ótima \(x^*\) pode ser sustentada como equilíbrio walrasiano após uma redistribuição de riqueza (transferências lump-sum), via algum vetor de preços \(p^*\).
Com preferências não-convexas (ex: \(u = x_1^2 + x_2^2\)), ótimos de Pareto na fronteira da caixa podem não ser sustentados por nenhum sistema de preços – o hiperplano de suporte em pontos não-convexos pode não ser único ou pode não separar os conjuntos de preferência.
2.1 Bens Contingentes e Utilidade Esperada
Com incerteza, o espaço de mercadorias se expande: um bem físico \(\ell\) no estado \(s\) é uma mercadoria diferente. Com \(L\) bens físicos e \(S\) estados, o espaço de mercadorias é \(\mathbb{R}^{LS}\).
A utilidade esperada de Von Neumann-Morgenstern do consumidor \(i\) é:
\[U_i(x_{1i},\dots,x_{Si}) = \sum_{s=1}^S \pi_s \, u_i(x_{si}),\]onde \(\pi_s > 0\) é a probabilidade do estado \(s\) (\(\sum_s \pi_s = 1\)) e \(u_i\) é a função de Bernoulli (utilidade cardinal).
A aversão ao risco é capturada pela concavidade de \(u_i\): se \(u_i'' < 0\), o agente prefere a esperança matemática ao risco. Exemplos:
| Bernoulli \(u_i(x)\) | Atitude ao risco | Intuição |
|---|---|---|
| \(\ln x\) | Averso (côncava) | Marginal decrescente |
| \(x\) (linear) | Neutro | Indiferente ao risco |
| \(x^2\) | Propenso (convexa) | Marginal crescente |
2.2 Equilíbrio de Arrow-Debreu
Com \(L=1\) bem físico e \(S\) estados (generalização imediata para \(L>1\)): um equilíbrio de Arrow-Debreu é um par \((p^*,x^*)\) com \(p^*=(p_1^*,\dots,p_S^*)\) (preços contingentes em \(t=0\)) e \(x^*=(x_{si})\) tais que:
- Cada agente \(i\) maximiza a utilidade esperada sujeito a uma única restrição orçamentária: \(\displaystyle\sum_s p_s x_{si} \leq \sum_s p_s \omega_{si} \equiv w_i\).
- Factibilidade em cada estado: \(\displaystyle\sum_i x_{si} = \sum_i \omega_{si}\) para todo \(s\).
Demanda com Utilidade Logarítmica
Para \(u_i = \ln\), a lagrangiana é:
Substituindo na restrição orçamentária: \(\sum_s p_s \cdot \frac{\pi_s}{\lambda p_s} = w_i \;\Rightarrow\; \frac{1}{\lambda} = w_i\) (pois \(\sum_s\pi_s=1\)).
O consumo no estado \(s\) é proporcional à probabilidade de \(s\) e à riqueza total \(w_i\), e inversamente proporcional ao preço contingente \(p_s\).
Dados: \(\pi_1=\pi_2=1/2\), \(\omega_A=(10,0)\), \(\omega_B=(0,30)\), \(u_i=\ln\).
Passo 1 – Riquezas: \(w_A = 10p_1\), \(w_B = 30p_2\).
Passo 2 – Demandas: \[x_{1A} = \frac{(1/2)\cdot 10p_1}{p_1} = 5, \quad x_{2A} = \frac{(1/2)\cdot 10p_1}{p_2} = \frac{5p_1}{p_2}\] \[x_{1B} = \frac{(1/2)\cdot 30p_2}{p_1} = \frac{15p_2}{p_1}, \quad x_{2B} = \frac{(1/2)\cdot 30p_2}{p_2} = 15\]
Passo 3 – Market clearing (estado 1): \(x_{1A}+x_{1B}=10 \;\Rightarrow\; 5 + \frac{15p_2}{p_1}=10 \;\Rightarrow\; \frac{p_1}{p_2}=3\).
Passo 4 – Verificação (estado 2): \(x_{2A}=5\cdot(1/3)\cdot3^{-1}\)... mais direto: \(x_{2A}=5p_1/p_2=5\cdot3=15\). \(x_{2B}=15\). \(15+15=30\) ✓
Equilíbrio AD: \(p^*=(3p_2,p_2)\), \(x_A^*=(5,15)\), \(x_B^*=(5,15)\).
2.3 Compartilhamento de Risco
O equilíbrio AD com mercados completos implica compartilhamento eficiente do risco agregado. Duas regras práticas:
- Agentes simétricos com mesma riqueza: consomem o mesmo em equilíbrio (ex: Amoreira e Boaventura acima, mesmo com dotações assimétricas, pois as riquezas se igualam pelo preço relativo).
- Agente neutro ao risco (\(u_C(x)=x\)): as CPO implicam \(\pi_s = \lambda p_s\), ou seja, \(p_s/p_{s'} = \pi_s/\pi_{s'}\). Com probabilidades iguais, \(p_1=p_2\). O agente neutro absorve todo o risco agregado; o agente averso consome o mesmo em todo estado.
Famílias Amoreira (\(u_A=\ln\)) e Carvalho (\(u_C=x\)). \(\pi_1=\pi_2=1/2\).
CPO de Carvalho: \(\pi_\ell = \lambda p_\ell\) com \(\pi_1=\pi_2 \Rightarrow p_1=p_2\).
Com \(p_1=p_2\): \(w_A = 10p_1\). Demanda de Amoreira: \(x_{1A}=x_{2A}=5\) (consumo constante nos estados).
Factibilidade: \(x_{1C}=10-5=5\), \(x_{2C}=30-5=25\). A família Carvalho arca com toda a variabilidade agregada.
2.4 Equilíbrio de Radner (Mercados Sequenciais)
Estrutura em dois períodos: em \(t=0\) os agentes transacionam ativos financeiros; em \(t=1\) o estado \(s\) se realiza e os mercados spot abrem. Um equilíbrio de Radner é \((q^*, z^*, p^{s*}, x^{s*})\) tal que:
- Cada agente escolhe portfólio \(z_i^*\) e consumo \(x_i^{s*}\) para maximizar utilidade esperada.
- Restrições orçamentárias: em \(t=0\): \(q\cdot z_i \leq 0\); em cada estado \(s\): \(p^s \cdot x_i^s \leq p^s\cdot\omega_i^s + \sum_k z_{ik} r_{sk}\).
- Market clearing: mercados de ativos (\(\sum_i z_i = 0\)) e spot (\(\sum_i x_i^s = \sum_i\omega_i^s\) ∀\(s\)).
Se a matriz de payoffs \(R\) tem posto igual a \(S\) (mercados completos), então o conjunto de alocações reais de equilíbrio de Radner coincide com o de Arrow-Debreu.
3.1 Ativos e Matriz de Payoffs
Com \(K\) ativos e \(S\) estados, o ativo \(k\) tem:
- Vetor de retornos: \(r_k = (r_{1k},\dots,r_{Sk}) \in \mathbb{R}^S\).
- Preço de mercado: \(q_k \in \mathbb{R}\).
A matriz de payoffs \(R\) é \(S\times K\), com a coluna \(k\) igual a \(r_k\). Um portfólio \(z=(z_1,\dots,z_K)\) gera o vetor de transferências de renda \(Rz\) nos diferentes estados.
O ativo \(k\) é elementar de Arrow para o estado \(s\) se \(r_{s'k}=\mathbf{1}[s'=s]\) (paga 1 no estado \(s\) e 0 nos demais). Qualquer ativo pode ser decomposto em ativos de Arrow.
3.2 Mercados Completos
Os mercados são completos se e somente se \(\text{posto}(R) = S\), ou seja, qualquer vetor de transferências em \(\mathbb{R}^S\) é atingível por algum portfólio.
Para verificar: calcule \(\det(R)\) (com \(S=K=2\)) ou reduza à forma escalonada. Se as colunas de \(R\) são linearmente dependentes, \(\text{posto}(R) < S\) e o mercado é incompleto.
\(R_1 = \begin{pmatrix}1 & 1\\0 & 2\end{pmatrix}\): \(\det = 2 \neq 0\) → completo.
\(R_2 = \begin{pmatrix}2 & 1\\4 & 2\end{pmatrix}\): linha 2 = 2×linha 1 → \(\det = 0\) → incompleto (posto 1).
3.3 Precificação por Ausência de Arbitragem
Uma carteira \(z\) é uma oportunidade de arbitragem se \(q\cdot z \leq 0\) (custo nulo ou negativo) e \(Rz \geq 0\) com \(Rz \neq 0\) (retorno não-negativo em todos os estados, positivo em algum).
Em mercados completos, um novo ativo com retorno \(r^{\text{new}}\) pode ser replicado: encontre \(\alpha\) tal que \(R\alpha = r^{\text{new}}\). O preço de não-arbitragem é \(q^{\text{new}} = q\cdot\alpha\).
- Verifique se \(\text{posto}(R)=S\) (mercado completo).
- Resolva o sistema linear \(R\alpha = r^{\text{new}}\) para \(\alpha \in \mathbb{R}^K\).
- O preço sem arbitragem é \(q^{\text{new}} = \sum_k \alpha_k q_k\).
Ativos: \(r_1=(1,0)\), \(r_2=(1,2)\), \(q_1=1\), \(q_2=2\). \(S=K=2\).
Derivativo (call sobre ativo 2, strike = 0.5·valor à vista, exercida se valor > 1.5):
Estado 1: valor à vista de \(r_2\) é 1 ≤ 1.5 → não exercida → payoff = 0.
Estado 2: valor à vista de \(r_2\) é 2 > 1.5 → exercida → compra a \(0.5\times 2=1\), recebe payoff 2, lucro = \(2-1=1\).
Portanto \(r_3=(0,1)\).
Replicação: \(\alpha_1(1,0)+\alpha_2(1,2)=(0,1)\):
\[\alpha_1+\alpha_2=0, \quad 2\alpha_2=1 \;\Rightarrow\; \alpha_2=0.5,\; \alpha_1=-0.5.\]\(q_3 = -0.5\times 1 + 0.5\times 2 = \mathbf{0.5}\).
3.4 Mercados Incompletos
Se \(\text{posto}(R) < S\), existem estados cujo risco não pode ser transferido. Consequências:
- O 1TBE falha no sentido usual (a alocação pode não ser Pareto-ótima sem restrições).
- Derivativos cujo retorno está fora do espaço de colunas de \(R\) não podem ser precificados por não-arbitragem (preço indeterminado).
- Pode-se falar em Ótimo de Pareto Restrito (second-best): eficiência dentro do espaço de alocações atingíveis.
Se \(r_1=(2,4)\) e \(r_2=(1,2)\): \(r_2=(1/2)r_1\), logo \(\text{posto}(R)=1 < 2\). O ativo \(r_3=(0,1)\) não pertence ao espaço coluna de \(R\) (que só contém múltiplos de \((2,4)\)), portanto não há portfólio replicante e o preço não pode ser determinado por arbitragem.
4. Equação de Euler – Horizonte Infinito
Considere o problema de um consumidor em horizonte infinito com tecnologia \(F(k)=Ak\):
Derivação
Substituindo a restrição na função objetivo:
CPO em relação a \(k_t\) (afeta o período \(t\) como investimento e o período \(t+1\) como capital):
Em capital: \[k_{t+1} = (1+\delta)Ak_t - \delta A^2 k_{t-1}\]
Em consumo: \[\underbrace{u'(c_t)}_{\text{custo marginal de poupar}} = \delta \underbrace{F'(k_t)}_A \underbrace{u'(c_{t+1})}_{\text{benefício marginal}} \;\Rightarrow\; \frac{1}{c_t} = \frac{\delta A}{c_{t+1}} \;\Rightarrow\; \boxed{c_{t+1} = \delta A \, c_t}\]
Interpretação: o consumidor poupa até que o custo de abrir mão de uma unidade hoje (\(u'(c_t)\)) iguale o retorno amanhã (\(\delta A\)) multiplicado pelo benefício de consumir amanhã (\(u'(c_{t+1})\)). O consumo cresce à taxa \(\delta A - 1\) — se \(\delta A > 1\), a economia cresce; se \(\delta A < 1\), decresce.
5.1 Prova Formal da Lei de Walras
Seja \(x_i(p)\) a demanda do consumidor \(i\). Sob LNS, a restrição orçamentária é satisfeita com igualdade: \(p\cdot x_i(p) = p\cdot\omega_i\) para todo \(i\) e todo \(p\).
Somando sobre todos os \(I\) consumidores:
\[\sum_{i=1}^I p\cdot x_i(p) = \sum_{i=1}^I p\cdot\omega_i\] \[p\cdot\sum_i x_i(p) = p\cdot\bar\omega\] \[p\cdot\!\left(\sum_i x_i(p) - \bar\omega\right) = 0\] \[\sum_{\ell=1}^L p_\ell\!\left(\sum_i x_{\ell i}(p) - \bar\omega_\ell\right) = 0. \quad\square\]Aplicação: Se o mercado do bem 1 equilibra (\(\sum_i x_{1i}(p^*)=\bar\omega_1\)) e \(p^*\gg 0\), então \(p_2^*(\sum_i x_{2i}(p^*)-\bar\omega_2)=0\) e como \(p_2^*>0\), concluímos \(\sum_i x_{2i}(p^*)=\bar\omega_2\).
5.2 Prova Detalhada do 1º Teorema do Bem-Estar
(Já apresentada na Seção 1.5 com formato de passos. Abaixo, a versão mais compacta para uso em prova.)
Seja \((p^*,x^*)\) WE. Suponha, por contradição, que \(\exists\) alocação factível \(x'\) com \(x'_i \succcurlyeq_i x_i^*\) para todo \(i\) e \(x'_{i_0}\succ_{i_0} x_{i_0}^*\) para algum \(i_0\).
- Otimalidade de \(x_{i_0}^*\): \(x'_{i_0}\succ_{i_0}x_{i_0}^* \Rightarrow x'_{i_0} \notin B_{i_0}(p^*) \Rightarrow p^*\cdot x'_{i_0} > p^*\cdot\omega_{i_0}\).
- Para \(i\neq i_0\): \(x'_i\succcurlyeq_i x_i^*\). Suponha \(p^*\cdot x'_i < p^*\cdot\omega_i\). Por LNS, \(\exists\, x''\) próximo de \(x'_i\) com \(x''\succ x'_i\) ainda dentro do orçamento, contradizendo \(x_i^*\) ser ótimo. Logo \(p^*\cdot x'_i \geq p^*\cdot\omega_i\).
- Somando: \(p^*\cdot\sum_i x'_i > p^*\cdot\bar\omega\). Porém \(x'\) factível e \(p^*\geq 0\) implica \(p^*\cdot\sum_i x'_i \leq p^*\cdot\bar\omega\). Contradição. \(\square\)
5.3 Eficiência Fraca e Condição de Transversalidade
Uma trajetória \(y=(y_0,y_1,\dots)\) é fracamente eficiente se não existe \(y'=(y'_0,y'_1,\dots)\) tal que \(y_{a,t-1}+y_{bt} \ll y'_{a,t-1}+y'_{bt}\) para todo \(t\) (onde \(a\ll b\) significa \(a_\ell < b_\ell\) para todo \(\ell\)).
Seja \(y\) que maximiza lucros a curto prazo para preços \(p\geq 0\) (com algum \(p_t\neq 0\)) e satisfaz \(p_{T+1}\cdot y_{aT}\to 0\) quando \(T\to\infty\).
Suponha \(y'\) com \(y_{a,t-1}+y_{bt} \ll y'_{a,t-1}+y'_{bt}\) para todo \(t\). Como \(p_t\geq 0\) com algum termo não nulo, isso implica \(p_t\cdot(y'_{a,t-1}+y'_{bt}) > p_t\cdot(y_{a,t-1}+y_{bt})\).
Da maximização de lucros a curto prazo em \(t\): \(p_t\cdot y_{bt} - p_{t+1}\cdot y_{at} \geq p_t\cdot y'_{bt} - p_{t+1}\cdot y'_{at}\), logo \(p_{t+1}\cdot(y'_{at}-y_{at}) \geq p_t\cdot(y'_{bt}-y_{bt}) > 0\) (pela hipótese de dominância estrita).
Telescopando de \(t=0\) a \(T\): \(p_{T+1}\cdot y'_{aT} - p_{T+1}\cdot y_{aT} \geq \varepsilon > 0\) para algum \(\varepsilon\) uniforme. Mas \(p_{T+1}\cdot y_{aT}\to 0\) (transversalidade) implica \(p_{T+1}\cdot y'_{aT} \geq \varepsilon > 0\) para todo \(T\), contradizendo que \(y'\) é uma trajetória de produção factível com preços que convergem. \(\square\)
Simulado – Questões no Estilo da Avaliação
Tente resolver cada item antes de expandir o gabarito.
Carlos e Daniela habitam uma economia de trocas puras com dois bens. Suas preferências e dotações são:
- Carlos: \(u_C(x_1,x_2) = x_1^{1/3}x_2^{2/3}\), \(\omega_C = (6,\,0)\).
- Daniela: \(u_D(x_1,x_2) = \min\{x_1,\,2x_2\}\), \(\omega_D = (0,\,9)\).
(a) Encontre a demanda marshalliana de Carlos condicionalmente a preços \(p_1,p_2>0\). [0,5 pt]
Gabarito (a)
- Calcular a renda — Carlos detém dotação apenas no bem 1: \(w_C = p_1\omega_{1C} = 6p_1\).
- Descartar solução de canto — Cobb-Douglas tem \(u_C(0,\cdot)=u_C(\cdot,0)=0\), enquanto qualquer ponto interior gera utilidade positiva. Com \(p\gg0\) a solução é sempre interior.
- Aplicar fórmula Cobb-Douglas — Com \(\alpha=1/3\), \(\beta=2/3\): \[x_{1C}=\frac{1/3}{1}\cdot\frac{6p_1}{p_1}=2,\qquad x_{2C}=\frac{2/3}{1}\cdot\frac{6p_1}{p_2}=\frac{4p_1}{p_2}.\] \(x_{1C}=2\) é constante pois \(w_C\propto p_1\) cancela \(p_1\) no denominador.
(b) Encontre a demanda de Daniela. Note que \(u_D = \min\{x_1, 2x_2\}\) — o kink ocorre em \(x_1 = 2x_2\), não em \(x_1=x_2\). [0,5 pt]
Gabarito (b)
- Identificar condição do kink — \(u_D=\min\{x_1,2x_2\}\) é maximizada em \(x_1=2x_2\): consumir além desse ponto em qualquer bem não eleva utilidade.
- Calcular a renda — \(w_D = p_2\omega_{2D} = 9p_2\).
- Substituir kink na restrição orçamentária — Com \(x_1=2x_2\): \[2p_1 x_{2D}+p_2 x_{2D}=9p_2\;\Rightarrow\; x_{2D}=\frac{9p_2}{2p_1+p_2},\quad x_{1D}=\frac{18p_2}{2p_1+p_2}.\]
(c) Defina o que é um equilíbrio walrasiano nesta economia e encontre-o. [0,75 pt]
Gabarito (c)
- Definição formal — Par \((p^*,x^*)\) tal que (i) cada agente maximiza utilidade dado seu orçamento e (ii) mercados equilibram: \(x_{1C}+x_{1D}=6\) e \(x_{2C}+x_{2D}=9\).
- Impor market clearing no bem 1 — \[2+\frac{18p_2}{2p_1+p_2}=6\;\Rightarrow\;\frac{18p_2}{2p_1+p_2}=4.\]
- Resolver o preço relativo — \(18p_2=8p_1+4p_2\;\Rightarrow\;14p_2=8p_1\;\Rightarrow\;\dfrac{p_1}{p_2}=\dfrac{7}{4}\).
- Completar a alocação — \[x_{1D}=\frac{18}{2(7/4)+1}=\frac{18}{9/2}=4,\quad x_{2D}=2,\quad x_{2C}=4\cdot\frac{7}{4}=7.\]
- Verificar pelo segundo mercado — \(x_{2C}+x_{2D}=7+2=9\) ✓ (Lei de Walras). Equilíbrio: \(p^*=\!\bigl(\tfrac{7p_2}{4},p_2\bigr)\), \(x_C^*=(2,7)\), \(x_D^*=(4,2)\).
(d) Esta economia admite algum equilíbrio com solução de canto? Justifique sistematicamente. [0,75 pt]
Gabarito (d)
- Listar casos de preços-limite — Com \(L=2\) bens, analisar: \((p_1,p_2>0)\), \((p_1=0,p_2>0)\), \((p_1>0,p_2=0)\) e \((p_1=p_2=0)\).
- Caso \(p_1=0,\,p_2>0\) — Carlos tem \(w_C=0\). Daniela tem \(w_D=9p_2>0\): ao preço nulo do bem 1, \(x_{1D}\to\infty\), violando factibilidade. Impossível.
- Caso \(p_1>0,\,p_2=0\) — Daniela tem \(w_D=0\). Carlos tem \(x_{2C}=4p_1/p_2\to\infty\). Viola factibilidade. Impossível.
- Caso \(p_1=p_2=0\) — Ambos com renda zero. Carlos indiferente em \((0,0)\); Daniela indiferente em \((0,x_{2D})\). Alocação \(x_C=(6,9)\), \(x_D=(0,0)\) é factível. Único equilíbrio de canto.
As famílias Esperança e Fortuna vivem em uma economia com um bem e dois estados da natureza. O estado 1 ocorre com probabilidade \(\pi_1=1/3\) e o estado 2 com \(\pi_2=2/3\). As dotações são:
- Esperança: \(\omega_E=(12,\,0)\). Fortuna: \(\omega_F=(0,\,6)\).
Ambas têm utilidade de Bernoulli \(u_i(x)=\ln x\).
(a) Defina formalmente o equilíbrio de Arrow-Debreu nesta economia. [0,5 pt]
Gabarito (a)
Um equilíbrio AD é um par \((p^*,x^*)\) com \(p^*=(p_1^*,p_2^*)\) (preços contingentes) e \(x^*=((x_{1E},x_{2E}),(x_{1F},x_{2F}))\) tal que:
- Cada família \(i\in\{E,F\}\) resolve: \[\max_{x_{1i},x_{2i}\geq 0} \frac{1}{3}\ln x_{1i}+\frac{2}{3}\ln x_{2i} \quad\text{s.a.}\quad p_1 x_{1i}+p_2 x_{2i} \leq p_1\omega_{1i}+p_2\omega_{2i}.\]
- Factibilidade: \(x_{1E}+x_{1F}=12\) e \(x_{2E}+x_{2F}=6\).
(b) Encontre o equilíbrio de Arrow-Debreu. [0,5 pt]
Gabarito (b)
- Calcular riquezas — \(w_E=p_1\omega_{1E}=12p_1\) e \(w_F=p_2\omega_{2F}=6p_2\).
- Aplicar fórmula de demanda (log) — Para \(u_i=\ln\), \(x_{si}=\pi_s w_i/p_s\): \[x_{1E}=\frac{(1/3)\cdot12p_1}{p_1}=4,\quad x_{2E}=\frac{(2/3)\cdot12p_1}{p_2}=\frac{8p_1}{p_2},\] \[x_{1F}=\frac{(1/3)\cdot6p_2}{p_1}=\frac{2p_2}{p_1},\quad x_{2F}=\frac{(2/3)\cdot6p_2}{p_2}=4.\]
- Impor market clearing (estado 1) — \[4+\frac{2p_2}{p_1}=12\;\Rightarrow\;\frac{p_1}{p_2}=\frac{1}{4}.\]
- Completar e verificar estado 2 — \(x_{2E}=8\cdot(1/4)=2\), \(x_{2F}=4\), soma \(=6\) ✓. Equilíbrio: \(p^*=(p_2/4,\,p_2)\), \(x_E^*=(4,2)\), \(x_F^*=(8,4)\).
(c) O equilíbrio é simétrico? O que explica o padrão de consumo encontrado? [0,5 pt]
Gabarito (c)
- Verificar simetria — \(x_E^*=(4,2)\neq x_F^*=(8,4)\): equilíbrio não é simétrico. Fortuna consome o dobro de Esperança em cada estado.
- Calcular riquezas com o preço encontrado — Normalizando \(p_2=1\): \(w_E=12\cdot(1/4)=3\) e \(w_F=6\cdot1=6\). Razão \(w_F/w_E=2\).
- Interpretar via aversão ao risco idêntica — Com \(u_i=\ln\) (mesma curvatura), agentes avessos consomem em proporção às riquezas em todos os estados: \(x_F/x_E=w_F/w_E=2\). A razão \(x_{2i}/x_{1i}=1/2\) reflete apenas a escassez relativa da dotação agregada (6 vs 12), via preços.
(d) Suponha que Fortuna é substituída pela família Glória, com utilidade de Bernoulli \(u_G(x)=x\) (neutra ao risco) e a mesma dotação \(\omega_G=(0,6)\). Encontre o novo equilíbrio de Arrow-Debreu. [0,5 pt]
Gabarito (d)
- CPO do agente neutro ao risco — Para \(u_G(x)=x\) (linear): \(\pi_s=\lambda p_s\), logo \[\frac{p_1}{p_2}=\frac{\pi_1}{\pi_2}=\frac{1/3}{2/3}=\frac{1}{2}.\] Preços contingentes ficam proporcionais às probabilidades.
- Demanda de Esperança com o novo preço — Normalizando \(p_2=1\): \(w_E=12\cdot(1/2)=6\). \[x_{1E}=\frac{(1/3)\cdot6}{1/2}=4,\quad x_{2E}=\frac{(2/3)\cdot6}{1}=4.\] Consumo constante: seguro completo provido por Glória.
- Factibilidade para Glória — \(x_{1G}=12-4=8\) e \(x_{2G}=6-4=2\).
- Verificar orçamento de Glória — \(w_G=6\), gasto \(=(1/2)\cdot8+1\cdot2=4+2=6\) ✓. Equilíbrio: \(p^*=(p_2/2,\,p_2)\), \(x_E^*=(4,4)\), \(x_G^*=(8,2)\).
(e) Compare os dois equilíbrios (itens b e d) em termos de compartilhamento de risco. [0,5 pt]
Gabarito (e)
- Equilíbrio com dois avessos (item b) — Ambas compartilham o risco proporcionalmente à riqueza; nenhuma tem consumo constante: \(x_E=(4,2)\) e \(x_F=(8,4)\) variam entre estados, refletindo a variabilidade da dotação total.
- Equilíbrio com agente neutro (item d) — Glória absorve todo o risco agregado. Esperança obtém consumo constante \(x_E=(4,4)\) — seguro perfeito. Glória assume \(x_G=(8,2)\), arcando com toda a variabilidade.
- Mecanismo subjacente — O agente neutro é indiferente ao risco (utilidade linear), provendo seguro sem custo de bem-estar esperado. Isso força \(p_s\propto\pi_s\), tornando o consumo de Esperança constante entre os estados.
Considere uma economia com \(S=2\) estados e \(K=2\) ativos com retornos e preços: \[r_1=(1,2), \quad r_2=(2,1), \quad q_1=1, \quad q_2=1.\]
(a) Verifique se o mercado é completo. [0,25 pt]
Gabarito (a)
- Construir a matriz de payoffs — Linhas = estados, colunas = ativos: \(R=\begin{pmatrix}1&2\\2&1\end{pmatrix}\).
- Calcular determinante e concluir — \(\det(R)=1-4=-3\neq0\). Logo \(\text{posto}(R)=2=S\): mercado completo.
(b) Uma instituição quer lançar um derivativo com retorno \(r_3=(3,0)\). As condições são suficientes para precificar este ativo? Se sim, calcule \(q_3\). [0,75 pt]
Gabarito (b)
- Confirmar precificação possível — Mercado completo (\(\text{posto}=S=2\)): qualquer \(r_3\in\mathbb{R}^2\) é replicável. Sim.
- Montar sistema de replicação — Encontre \((\alpha_1,\alpha_2)\) com \(\alpha_1 r_1+\alpha_2 r_2=r_3\): \[\begin{cases}\alpha_1+2\alpha_2=3\\2\alpha_1+\alpha_2=0\end{cases}\]
- Resolver o sistema — Da segunda: \(\alpha_1=-\alpha_2/2\). Substituindo: \(3\alpha_2/2=3\Rightarrow\alpha_2=2\), \(\alpha_1=-1\).
- Calcular preço por não-arbitragem — \(q_3=(-1)\cdot1+2\cdot1=\mathbf{1}\).
(c) Suponha agora que \(r_1=(2,4)\), mantendo \(r_2\), \(q_1\) e \(q_2\). O mercado ainda é completo? É possível precificar \(r_3=(3,0)\)? Justifique. [0,5 pt]
Gabarito (c)
- Recalcular completude — \(R'=\begin{pmatrix}2&2\\4&1\end{pmatrix}\). \(\det(R')=2-8=-6\neq0\). Mercado ainda completo.
- Novo sistema de replicação — \[\begin{cases}2\alpha_1+2\alpha_2=3\\4\alpha_1+\alpha_2=0\end{cases}\;\Rightarrow\;\alpha_2=-4\alpha_1,\;2\alpha_1-8\alpha_1=3\;\Rightarrow\;\alpha_1=-\tfrac{1}{2},\;\alpha_2=2.\]
- Calcular preço — \(q_3=(-\tfrac{1}{2})\cdot1+2\cdot1=\mathbf{3/2}\).
(d) Considere uma terceira variação: \(r_1=(1,2)\) e \(r_2=(2,4)\) (voltando ao original, mas trocando \(r_2\)). O mercado é completo? Pode-se precificar \(r_3=(3,0)\)? [0,5 pt]
Gabarito (d)
- Construir R'' e verificar det — \(R''=\begin{pmatrix}1&2\\2&4\end{pmatrix}\). \(\det(R'')=4-4=0\). Mercado incompleto.
- Identificar dependência linear — \(r_2=2r_1\): colunas proporcionais, \(\text{posto}(R'')=1
- Verificar se \(r_3\) é replicável — \(r_3=(3,0)\) exigiria \(c=3\) (estado 1) e \(c=0\) (estado 2) simultaneamente. Contradição: \((3,0)\notin\text{col}(R'')\).
- Concluir — Preço indeterminado por não-arbitragem: mercado incompleto não gera preço único para ativos fora do espaço de replicação.
As famílias Henrique (H) e Isabela (I) habitam uma economia com um bem físico (\(L=1\)), dois estados da natureza (\(S=2\)), probabilidades \(\pi_1=1/3\) e \(\pi_2=2/3\), e utilidade de Bernoulli \(u_i(x)=\ln x\). As dotações são \(\omega_H=(6,\,0)\) e \(\omega_I=(0,\,6)\). Em \(t=0\) transacionam dois ativos:
- Ativo 1 – elementar de Arrow para o estado 1: \(r_1=(1,\,0)\), preço \(q_1\).
- Ativo 2 – elementar de Arrow para o estado 2: \(r_2=(0,\,1)\), preço \(q_2\).
Em \(t=1\), após a realização do estado, os mercados spot abrem com preço normalizado \(p^s=1\) em cada estado.
(a) Defina formalmente o equilíbrio de Radner nesta economia. [0,5 pt]
Gabarito (a)
Um equilíbrio de Radner é uma tupla \((q^*,z^*,p^{1*},p^{2*},x^*)\) tal que:
- Cada família \(i\in\{H,I\}\) maximiza \(\tfrac{1}{3}\ln x_{1i}+\tfrac{2}{3}\ln x_{2i}\) sujeita a:
- t=0 (mercado de ativos): \(q_1 z_{i1}+q_2 z_{i2} \leq 0\).
- t=1, estado s (mercado spot): \(p^s x_{si} \leq p^s\omega_{si}+z_{i1}r_{s1}+z_{i2}r_{s2}\).
- Mercados se equilibram: ativos \(\sum_i z_{ik}=0\) para \(k=1,2\); spot \(\sum_i x_{si}=\sum_i\omega_{si}\) para \(s=1,2\).
A diferença essencial frente ao AD: há duas datas e restrições orçamentárias separadas por estado, em vez de uma única restrição global com preços contingentes.
(b) Mostre que o mercado é completo e, usando o equilíbrio Arrow-Debreu desta economia, determine \(q_1\) e \(q_2\). [0,5 pt]
Gabarito (b)
- Verificar completude — \(R=I_2\). \(\det(R)=1\neq0\), \(\text{posto}(R)=2=S\). ✓
- Resolver o equilíbrio AD — Com fórmula \(x_{si}=\pi_s w_i/p_s^{AD}\): \(x_{1H}=2\), \(x_{2H}=4p_1^{AD}/p_2^{AD}\), \(x_{1I}=2p_2^{AD}/p_1^{AD}\), \(x_{2I}=4\). Market clearing: \(2+2p_2^{AD}/p_1^{AD}=6\Rightarrow p_1^{AD}/p_2^{AD}=1/2\). Com \(p_2^{AD}=1\): \(p^{AD}=(1/2,1)\), \(x_H=(2,2)\), \(x_I=(4,4)\).
- Extrair preços de Radner — Com ativos elementares e \(p^s=1\): \(q_s=p_s^{AD}/p^s=p_s^{AD}\). Normalizando \(q_2=2\): \(q_1=1\), \(q_2=2\).
(c) Encontre os portfólios ótimos \(z_H\) e \(z_I\). Verifique clearing de ativos e orçamentos em \(t=0\). [0,75 pt]
Gabarito (c)
- Simplificar restrição de estado — Com \(p^s=1\) e ativos de Arrow (\(r_{ss}=1\), \(r_{ss'}=0\)): a restrição de estado \(s\) dá \(x_{si}=\omega_{si}+z_{is}\), logo \(z_{is}=x_{si}-\omega_{si}\).
- Portfólio de Henrique — \(z_{H1}=2-6=-4\), \(z_{H2}=2-0=+2\). Orçamento \(t=0\): \(1(-4)+2(+2)=0\) ✓
- Portfólio de Isabela — \(z_{I1}=4-0=+4\), \(z_{I2}=4-6=-2\). Orçamento \(t=0\): \(1(4)+2(-2)=0\) ✓
- Verificar clearing de ativos — \(z_{H1}+z_{I1}=0\) ✓; \(z_{H2}+z_{I2}=0\) ✓. Henrique vende Arrow-1 (estado da dotação) e compra Arrow-2; Isabela faz o espelho.
(d) Enuncie o Teorema da Equivalência AD–Radner e verifique-o explicitamente. [0,75 pt]
Gabarito (d)
- Enunciar o teorema — Se \(\text{posto}(R)=S\), o conjunto de alocações reais de equilíbrio de Radner coincide com o de Arrow-Debreu.
- Calcular alocação induzida pelos portfólios — \[x_{1H}=6+(-4)=2,\quad x_{2H}=0+2=2\;\Rightarrow\;x_H=(2,2).\] \[x_{1I}=0+4=4,\quad x_{2I}=6-2=4\;\Rightarrow\;x_I=(4,4).\]
- Confirmar igualdade com AD — Coincide exatamente com a alocação AD do item (b). \(\square\)
Considere a mesma economia da Questão 4 (H e I, \(\pi_1=1/3\), \(\pi_2=2/3\), \(u_i=\ln\), \(\omega_H=(6,0)\), \(\omega_I=(0,6)\)), mas agora com dois ativos financeiros distintos:
- Ativo 1 (bônus, paga 1 em qualquer estado): \(r_1=(1,\,1)\), preço \(q_1\).
- Ativo 2 (ativo de risco): \(r_2=(0,\,2)\), preço \(q_2\).
(a) O mercado é completo? Expresse os preços de Arrow implícitos \((\psi_1,\psi_2)\) em função de \(q_1\) e \(q_2\). [0,5 pt]
Gabarito (a)
- Construir R e verificar det — \(R=\begin{pmatrix}1&0\\1&2\end{pmatrix}\). \(\det(R)=2\neq0\). Mercado completo.
- Montar sistema \(R^\top\psi=q\) — \[\begin{pmatrix}1&1\\0&2\end{pmatrix}\begin{pmatrix}\psi_1\\\psi_2\end{pmatrix}=\begin{pmatrix}q_1\\q_2\end{pmatrix}.\]
- Resolver para \(\psi\) — Da segunda linha: \(\psi_2=q_2/2\). Da primeira: \(\psi_1=q_1-q_2/2\).
(b) Usando os preços Arrow-Debreu da Questão 4, determine \(q_1\) e \(q_2\). [0,5 pt]
Gabarito (b)
- Extrair \(\psi\) do equilíbrio AD — De Q4: \(p^{AD}=(1/2,1)\) e \(p^s=1\), logo \(\psi_s=p_s^{AD}\): \(\psi_1=1/2\), \(\psi_2=1\).
- Calcular \(q_k=\sum_s\psi_s r_{sk}\) — \[q_1=\tfrac{1}{2}\cdot1+1\cdot1=\tfrac{3}{2},\quad q_2=\tfrac{1}{2}\cdot0+1\cdot2=2.\]
- Verificação cruzada — \(\psi_2=q_2/2=1\) ✓; \(\psi_1=q_1-q_2/2=3/2-1=1/2\) ✓.
(c) Encontre os portfólios ótimos \(z_H\) e \(z_I\). Verifique clearing e orçamentos. Compare com a Questão 4. [0,75 pt]
Gabarito (c)
- Identificar alocação-alvo — Pelo Teorema da Equivalência, a alocação real é a mesma do AD: \(x_H=(2,2)\), \(x_I=(4,4)\).
- Sistema \(Rz_H=x_H-\omega_H\) — \[\begin{pmatrix}1&0\\1&2\end{pmatrix}\begin{pmatrix}z_{H1}\\z_{H2}\end{pmatrix}=\begin{pmatrix}-4\\2\end{pmatrix}\;\Rightarrow\;z_{H1}=-4,\;z_{H2}=3.\] Orçamento: \(\tfrac{3}{2}(-4)+2(3)=0\) ✓
- Sistema \(Rz_I=x_I-\omega_I\) — \[\begin{pmatrix}1&0\\1&2\end{pmatrix}\begin{pmatrix}z_{I1}\\z_{I2}\end{pmatrix}=\begin{pmatrix}4\\-2\end{pmatrix}\;\Rightarrow\;z_{I1}=4,\;z_{I2}=-3.\] Orçamento: \(\tfrac{3}{2}(4)+2(-3)=0\) ✓
- Verificar clearing e comparar com Q4 — \(z_{H1}+z_{I1}=0\) ✓; \(z_{H2}+z_{I2}=0\) ✓. Alocação idêntica à Q4; portfólios diferem: \(z_{H2}=3\) aqui vs \(z_{H2}=2\) em Arrow. Mercados completos distintos produzem a mesma alocação real.
(d) Uma instituição propõe emitir \(r_3=(1,\,3)\). Esse ativo é redundante? Se sim, calcule \(q_3\) por ausência de arbitragem e descreva a estratégia de arbitragem caso o preço seja \(q_3=4\). [0,75 pt]
Gabarito (d)
- Testar replicação (sistema linear) — \(\alpha_1(1,1)+\alpha_2(0,2)=(1,3)\Rightarrow\alpha_1=1,\;1+2\alpha_2=3\Rightarrow\alpha_2=1\). Solução existe: \(r_3=r_1+r_2\). Ativo redundante.
- Calcular \(q_3\) por não-arbitragem — \(q_3=1\cdot q_1+1\cdot q_2=\tfrac{3}{2}+2=\tfrac{7}{2}\). Via Arrow: \(\psi_1\cdot1+\psi_2\cdot3=\tfrac{1}{2}+3=\tfrac{7}{2}\) ✓.
- Estratégia de arbitragem se \(q_3=4\) — Ativo 3 sobrepreçado (\(4>7/2\)). Venda 1 unidade de \(r_3\), receba 4; compre a carteira \((r_1+r_2)\) pagando \(7/2\). Lucro imediato \(1/2\), payoff nulo em ambos os estados. Arbitragem pura sem risco.
Questões Extras – Das Listas de Exercícios
Questões selecionadas das listas de MWG e exercícios adicionais (A.4, A.6, A.7). Nível e estilo idênticos ao simulado.
Considere uma economia com \(S=3\) estados \(\{A,B,C\}\) e \(K=3\) ativos com retornos e preços:
Uma instituição oferece uma opção de compra \(r_4\) sobre o ativo 3, com preço de exercício \(c=2\), exercível após a revelação do estado e antes do pagamento dos retornos.
(a) Escreva o vetor de retornos \(r_4\). [0,5 pt]
Gabarito (a)
- Identificar a condição de exercício — A opção é exercida quando o valor do ativo 3 supera o preço de exercício \(c=2\): payoff = \(\max\{r_{3s}-c,\,0\}\).
- Calcular payoff estado a estado —
- Estado A: \(r_{3A}=1 < 2\) → não exerce → payoff \(=0\).
- Estado B: \(r_{3B}=2 = 2\) → indiferente → payoff \(=0\).
- Estado C: \(r_{3C}=3 > 2\) → exerce → payoff \(=3-2=1\).
- Resultado — \(r_4=(0,\,0,\,1)\).
(b) O mercado é completo? Se sim, calcule \(q_4\) por arbitragem. [1 pt]
Gabarito (b)
- Construir R e verificar completude — \(R=\begin{pmatrix}1&0&1\\0&1&2\\0&0&3\end{pmatrix}\). Triangular superior com diagonal não-nula: \(\det(R)=1\cdot1\cdot3=3\neq0\). Logo \(\text{posto}(R)=3=S\). Mercado completo.
- Montar sistema de replicação \(\alpha_1 r_1+\alpha_2 r_2+\alpha_3 r_3=r_4\) — \[\begin{cases} \alpha_1+\alpha_3=0 & \text{(estado A)}\\ \alpha_2+2\alpha_3=0 & \text{(estado B)}\\ 3\alpha_3=1 & \text{(estado C)} \end{cases}\]
- Resolver de baixo para cima — Estado C: \(\alpha_3=1/3\). Estado B: \(\alpha_2=-2/3\). Estado A: \(\alpha_1=-1/3\).
- Calcular \(q_4\) por não-arbitragem — \[q_4=\alpha_1 q_1+\alpha_2 q_2+\alpha_3 q_3=\left(-\tfrac{1}{3}\right)\cdot1+\left(-\tfrac{2}{3}\right)\cdot1+\tfrac{1}{3}\cdot5=\frac{-1-2+5}{3}=\frac{2}{3}.\]
(c) Calcule \(q_4\) via preços de Arrow (multiplicadores \(\mu_s\)). Verifique a consistência. [0,5 pt]
Gabarito (c)
- Montar sistema \(R^\top\mu=q\) — \[\begin{pmatrix}1&0&0\\0&1&0\\1&2&3\end{pmatrix}\begin{pmatrix}\mu_A\\\mu_B\\\mu_C\end{pmatrix}=\begin{pmatrix}1\\1\\5\end{pmatrix}\;\Rightarrow\;\mu_A=1,\;\mu_B=1,\;1+2+3\mu_C=5\;\Rightarrow\;\mu_C=\tfrac{2}{3}.\]
- Precificar \(r_4\) via \(\mu\) — \[q_4=\mu_A\cdot0+\mu_B\cdot0+\mu_C\cdot1=\frac{2}{3}\;\checkmark\]
- Interpretar — \(\mu_A=\mu_B=1>\mu_C=2/3\): a riqueza é mais valiosa nos estados A e B (onde os recursos são mais escassos) do que no estado C, onde o ativo 3 paga 3 unidades, tornando-o relativamente abundante.
(d) Encontre a carteira \(z=(z_1,z_2,z_3,0)\) que replica \(z_4=30\) unidades de \(r_4\). Quantas unidades de cada ativo são compradas ou vendidas? [0,5 pt]
Gabarito (d)
- Escalar a meta — A carteira deve replicar \(30\cdot r_4=(0,0,30)\).
- Resolver \(Rz=30r_4\) — \[\begin{cases}z_1+z_3=0\\z_2+2z_3=0\\3z_3=30\end{cases}\;\Rightarrow\;z_3=10,\;z_1=-10,\;z_2=-20.\]
- Descrever as operações —
- \(z_1=-10\): vende 10 unidades do ativo 1 (ativo de Arrow estado A).
- \(z_2=-20\): vende 20 unidades do ativo 2 (ativo de Arrow estado B).
- \(z_3=+10\): compra 10 unidades do ativo 3.
Considere uma economia de trocas com dois agentes A e B, um bem físico, dois estados (\(S=2\)) e probabilidades \(\pi_1=1/3\), \(\pi_2=2/3\). As utilidades de Bernoulli são:
- Agente A (averso ao risco CARA): \(u_A(x)=-e^{-x}\).
- Agente B (neutro ao risco): \(u_B(x)=x\).
Normalização de preços: \(p_1+p_2=1\). Encontre o equilíbrio Arrow-Debreu para os dois casos de dotação e interprete.
- Caso (a): \(\omega_A=(99,0)\), \(\omega_B=(0,99)\).
- Caso (b): \(\omega_A=(33,0)\), \(\omega_B=(0,66)\).
(a) Determine os preços de equilíbrio \((p_1,p_2)\) e a alocação para o Caso (a). [1 pt]
Gabarito (a)
- CPO de B (neutro) → preços — Para \(u_B(x)=x\), a lagrangiana dá \(\pi_s=\lambda_B p_s\) para cada \(s\). Logo: \[\frac{p_1}{p_2}=\frac{\pi_1}{\pi_2}=\frac{1/3}{2/3}=\frac{1}{2}.\] Com normalização \(p_1+p_2=1\): \(\boxed{p_1=1/3,\;p_2=2/3}\).
- CPO de A (CARA) → seguro completo — \(u_A'(x)=e^{-x}\). A CPO dá: \[\pi_s e^{-x_{sA}}=\lambda_A p_s\;\Rightarrow\; e^{-x_{sA}}=\lambda_A\frac{p_s}{\pi_s}.\] Como \(p_s/\pi_s = 1/\lambda_B\) (constante em \(s\)), \(e^{-x_{sA}}\) é constante em \(s\). Logo \(x_{1A}=x_{2A}\equiv c_A\): agente A obtém consumo constante em ambos os estados.
- Determinar \(c_A\) pelo orçamento — Renda: \(w_A=p_1\cdot99=(1/3)\cdot99=33\). Com \(x_{1A}=x_{2A}=c_A\) e \(p_1+p_2=1\): \[p_1 c_A+p_2 c_A=c_A(p_1+p_2)=c_A=w_A=33.\]
- Factibilidade para B — Dotação total: 99 em cada estado. \[x_{1B}=99-33=66,\quad x_{2B}=99-33=66.\] B também tem consumo constante (pois a dotação agregada é idêntica nos dois estados).
- Resultado — \(p^*=(1/3,\,2/3)\), \(x_A^*=(33,33)\), \(x_B^*=(66,66)\). Razão \(x_B/x_A=2\) em cada estado, proporcional à relação de riquezas (\(w_B/w_A=66/33=2\)).
(b) Repita para o Caso (b) e compare as alocações. [1 pt]
Gabarito (b)
- Preços — Os preços não dependem das dotações (derivam apenas da CPO de B): \(p_1=1/3\), \(p_2=2/3\) (idem ao Caso a).
- Consumo constante de A — \(w_A=p_1\cdot33=(1/3)\cdot33=11\). Logo \(c_A=11\).
- Factibilidade para B — Dotação total: 33 no estado 1 e 66 no estado 2. \[x_{1B}=33-11=22,\quad x_{2B}=66-11=55.\] B agora tem consumo variável: absorve toda a variabilidade agregada da economia.
- Resultado — \(p^*=(1/3,\,2/3)\), \(x_A^*=(11,11)\), \(x_B^*=(22,55)\).
(c) Interprete os dois resultados: por que A tem sempre consumo constante? Por que B absorve todo o risco no Caso (b) mas não no Caso (a)? [0,5 pt]
Gabarito (c)
- Por que A tem consumo constante (seguro perfeito) — A tem utilidade CARA (\(u_A=-e^{-x}\)), com aversão absoluta ao risco \(=1\) (constante). O agente B é neutro ao risco, portanto provê seguro completo a qualquer preço actuarialmente justo. Como \(p_s/\pi_s\) é constante (consequência da CPO de B), o custo de transferir riqueza entre estados é proporcional às probabilidades, e A prefere não ter variabilidade: obtém seguro perfeito sem custo extra de bem-estar para B.
- Por que B não tem consumo constante no Caso (b) — No Caso (a), a dotação agregada é \(99+99=99\) em ambos os estados: sem risco agregado, B também termina com consumo constante. No Caso (b), a dotação agregada é \(33\) no estado 1 e \(66\) no estado 2: há risco agregado real, e como A está completamente segurado, B absorve toda a variação (\(22\) vs \(55\)). Um agente neutro ao risco é o segurador natural de última instância.
Dois agricultores, A e B, são separados por uma montanha. Há 50% de chance de enchente. Os colhimentos são:
- Estado 1 (enchente, \(\pi_1=1/2\)): A colhe 5, B colhe 10.
- Estado 2 (sem enchente, \(\pi_2=1/2\)): A colhe 10, B colhe 10.
Ambos têm \(u_i(x)=\ln x\). Uma obra de contenção eliminaria a enchente nos dois lados, fazendo A colher 10 em qualquer estado. O custo da obra é \(P\) (em sacos de batata), pago antes da realização do estado.
(a) Sem qualquer mercado, qual a disposição a pagar (DAP) de cada agricultor pela obra, se tiver que arcar sozinho com o custo? [1 pt]
Gabarito (a)
- Utilidade esperada de A sem obra — \(EU_A=\tfrac{1}{2}\ln5+\tfrac{1}{2}\ln10=\tfrac{1}{2}\ln50\).
- Utilidade de A com obra (paga \(P\)) — A passa a colher 10 em ambos os estados mas paga \(P\): \(EU_A^{obra}=\ln(10-P)\).
- DAP de A — Iguala as utilidades: \[\ln(10-P_A)=\tfrac{1}{2}\ln50\;\Rightarrow\;10-P_A=\sqrt{50}=5\sqrt{2}\;\Rightarrow\;\boxed{P_A=10-5\sqrt{2}\approx2{,}93}.\]
- DAP de B — B colhe 10 nos dois estados independentemente da enchente. A obra não altera o consumo de B: \(EU_B^{obra}=\ln(10-P_B)\) vs \(EU_B=\ln10\). Logo \(P_B=0\). B não está disposto a pagar nada.
(b) Surge um intermediário financeiro que viabiliza mercados completos de ativos (equilíbrio Arrow-Debreu). Qual é o equilíbrio? [1 pt]
Gabarito (b)
- Aplicar fórmula de demanda (log) — Com \(u_i=\ln\), \(\pi_1=\pi_2=1/2\): \(x_{si}=\tfrac{1}{2}w_i/p_s\). Riquezas: \(w_A=5p_1+10p_2\), \(w_B=10p_1+10p_2\).
- Market clearing (estado 1) — \[\frac{w_A+w_B}{2p_1}=15\;\Rightarrow\;15p_1+20p_2=30p_1\;\Rightarrow\;\frac{p_1}{p_2}=\frac{4}{3}.\]
- Calcular alocações (com \(p_2=1\), \(p_1=4/3\)) — \[w_A=5\cdot\tfrac{4}{3}+10=\tfrac{50}{3},\quad w_B=10\cdot\tfrac{4}{3}+10=\tfrac{70}{3}.\] \[x_{1A}=\frac{50/3}{2\cdot4/3}=\frac{25}{4},\quad x_{2A}=\frac{50/3}{2}=\frac{25}{3},\quad x_{1B}=\frac{35}{4},\quad x_{2B}=\frac{35}{3}.\]
- Verificar e interpretar — Clearings: \(\tfrac{25}{4}+\tfrac{35}{4}=15\) ✓; \(\tfrac{25}{3}+\tfrac{35}{3}=20\) ✓. A razão \(x_B/x_A=7/5\) em todo estado reflete \(w_B/w_A=7/5\) (Regra de Borch com mesma curvatura). A recebe consumo variável: \(6{,}25\) no estado 1 e \(8{,}33\) no estado 2 — seguro parcial, não completo, pois B é também averso ao risco.
(c) Sob mercados completos, qual a DAP de cada agricultor pela obra? Compare com o item (a) e interprete o resultado. [1 pt]
Gabarito (c)
- Utilidade de A no equilíbrio AD (sem obra) — \[EU_A^{AD}=\tfrac{1}{2}\ln\!\tfrac{25}{4}+\tfrac{1}{2}\ln\!\tfrac{25}{3}=\tfrac{1}{2}\ln\!\frac{625}{12}.\]
- Utilidade de A com obra e mercados completos — Com a obra, as dotações tornam-se \(\omega_A=(10,10)\), \(\omega_B=(10,10)\). Endowments simétricos → sem motivo para troca → cada um consome a dotação menos o pagamento: \(EU_A^{fp}=\ln(10-P_A)\).
- DAP de A sob mercados completos —
\[\ln(10-P_A^{AD})=\tfrac{1}{2}\ln\!\frac{625}{12}\;\Rightarrow\;10-P_A^{AD}=\sqrt{\frac{625}{12}}=\frac{25\sqrt{3}}{6}\;\Rightarrow\;\boxed{P_A^{AD}=10-\frac{25\sqrt{3}}{6}\approx2{,}78}.\]
\(P_A^{AD}
cai quando há mercados completos. - DAP de B sob mercados completos — \[EU_B^{AD}=\tfrac{1}{2}\ln\!\tfrac{35}{4}+\tfrac{1}{2}\ln\!\tfrac{35}{3}=\tfrac{1}{2}\ln\!\frac{1225}{12}\approx2{,}31 > \ln10\approx2{,}30.\] Logo \(10-P_B^{AD}=\sqrt{1225/12}=35\sqrt{3}/6\approx10{,}10>10\), ou seja, \(P_B^{AD}\approx-0{,}10<0\). B precisaria ser compensado para aceitar a obra.
- Interpretação — Os mercados financeiros substituem parcialmente o bem público: A já obtém seguro parcial via negociação de ativos, então o valor marginal da obra cai. Para B, a obra é prejudicial: ela elimina o mercado de seguros em que B lucra (B seria a contraparte vendendo proteção). Este é um exemplo clássico de crowding-out de bens públicos por seguros privados.
Dois consumidores têm preferências Cobb-Douglas com parâmetros potencialmente distintos:
As dotações são \((\omega_{11},\omega_{21})\gg0\) e \((\omega_{12},\omega_{22})\gg0\).
(a) Encontre o preço relativo de equilíbrio \(p_1/p_2\) e a alocação walrasiana. Para o caso especial \(\alpha=\beta=1/2\), simplifique a fórmula e interprete. [1 pt]
Gabarito (a)
- Demandas marshallianas — Para Cobb-Douglas com expoentes \((\alpha_\ell)\), \(x_{\ell i}^*=\alpha_\ell\, w_i/p_\ell\). Definindo \(r\equiv p_1/p_2\) e \(w_i=p_1\omega_{1i}+p_2\omega_{2i}=p_2(r\omega_{1i}+\omega_{2i})\): \[x_{11}^*=\frac{\alpha(r\omega_{11}+\omega_{21})}{r},\quad x_{12}^*=\frac{\beta(r\omega_{12}+\omega_{22})}{r}.\]
- Market clearing do bem 1 — \(x_{11}^*+x_{12}^*=\bar\omega_1\equiv\omega_{11}+\omega_{12}\): \[\alpha(r\omega_{11}+\omega_{21})+\beta(r\omega_{12}+\omega_{22})=r\bar\omega_1.\]
- Isolar \(r\) — Coletando termos: \[r\bigl[\alpha\omega_{11}+\beta\omega_{12}-\bar\omega_1\bigr]=-(\alpha\omega_{21}+\beta\omega_{22})\] \[r\bigl[-(1-\alpha)\omega_{11}-(1-\beta)\omega_{12}\bigr]=-(\alpha\omega_{21}+\beta\omega_{22}).\] \[\boxed{r^*=\frac{p_1}{p_2}=\frac{\alpha\omega_{21}+\beta\omega_{22}}{(1-\alpha)\omega_{11}+(1-\beta)\omega_{12}}.}\]
- Alocação de equilíbrio — Normalizando \(p_2=1\), \(p_1=r^*\): \[x_{11}^*=\frac{\alpha(r^*\omega_{11}+\omega_{21})}{r^*},\quad x_{21}^*=(1-\alpha)(r^*\omega_{11}+\omega_{21}),\] e análogo para o consumidor 2.
- Caso especial \(\alpha=\beta=1/2\) — \[r^*=\frac{\tfrac{1}{2}(\omega_{21}+\omega_{22})}{\tfrac{1}{2}(\omega_{11}+\omega_{12})}=\frac{\bar\omega_2}{\bar\omega_1}.\] O preço relativo iguala a razão das dotações agregadas. Com preferências simétricas, o mercado precifica os bens proporcionalmente à sua escassez relativa, independentemente de como as dotações se distribuem entre os dois agentes.
(b) Mostre que \(\partial r^*/\partial\omega_{11}<0\) e interprete. Como a alocação de equilíbrio de cada agente se altera? [1 pt]
Gabarito (b)
- Derivar \(\partial r^*/\partial\omega_{11}\) — Escrevendo \(r^*=N/D\) com \(N=\alpha\omega_{21}+\beta\omega_{22}\) e \(D=(1-\alpha)\omega_{11}+(1-\beta)\omega_{12}\): \[\frac{\partial r^*}{\partial\omega_{11}}=\frac{0\cdot D - N\cdot(1-\alpha)}{D^2}=\frac{-(1-\alpha)N}{D^2}<0.\] Um aumento na dotação de bem 1 do consumidor 1 reduz o preço relativo do bem 1.
- Intuição do efeito-preço — Maior oferta do bem 1 → excesso de oferta transitório → o preço \(p_1\) cai até restaurar o equilíbrio. Este é o efeito fundamental de dotação em equilíbrio geral: o preço de um bem cai quando a oferta aumenta.
- Efeito sobre as demandas — Para o consumidor 1: com \(q\equiv1/r^*\), \(x_{11}^*=\alpha(\omega_{11}+q\omega_{21})\). Como \(q=1/r^*\) sobe (pois \(r^*\) cai), \(x_{11}^*\) aumenta — tanto pelo efeito riqueza direto quanto pela queda no preço relativo. Para o consumidor 2: \(x_{12}^*=\beta(\omega_{12}+q\omega_{22})\) também sobe via o aumento de \(q\), pois a queda de \(p_1\) barateia o bem 1 para todos.
Considere uma economia com um único consumidor–proprietário e uma firma. O consumidor maximiza \(u(x_1,x_2)=\ln x_1+\ln x_2\), onde \(x_1\) é lazer e \(x_2\) é o bem de consumo. Sua dotação de tempo é \(\bar L=1\). A firma usa trabalho \(z\geq0\) como único insumo, com tecnologia \(f(z)=z^{1/2}\). O consumidor é dono da firma e recebe os lucros. Normalize o preço do bem produzido: \(p=1\).
Encontre o equilíbrio walrasiano: salário \(w^*\), lucros \(\pi^*\), consumo \((x_1^*,x_2^*)\) e emprego \(z^*\).
Gabarito
- Problema da firma — Maximiza lucro \(\pi=p\cdot f(z)-w\cdot z=z^{1/2}-wz\). \[\text{CPO}: \frac{1}{2}z^{-1/2}=w\;\Rightarrow\; z^*=\frac{1}{4w^2},\quad\pi^*=\frac{1}{4w}.\]
- Problema do consumidor — Renda: \(I=w\bar L+\pi=w+\frac{1}{4w}\). Restrição orçamentária: \(w\cdot x_1+x_2=I\) (custo de lazer = salário-oportunidade).
Com Cobb-Douglas de expoentes iguais: \[x_1^*=\frac{I}{2w}=\frac{w+\frac{1}{4w}}{2w}=\frac{1}{2}+\frac{1}{8w^2},\qquad x_2^*=\frac{I}{2}=\frac{w}{2}+\frac{1}{8w}.\] - Market clearing do trabalho — Trabalho ofertado \(= \bar L - x_1^* =\frac{1}{2}-\frac{1}{8w^2}\) deve igualar a demanda da firma \(z^*=\frac{1}{4w^2}\): \[\frac{1}{2}-\frac{1}{8w^2}=\frac{1}{4w^2}\;\Rightarrow\;\frac{1}{2}=\frac{3}{8w^2}\;\Rightarrow\;w^2=\frac{3}{4}\;\Rightarrow\;\boxed{w^*=\frac{\sqrt{3}}{2}.}\]
- Computar o equilíbrio — \[z^*=\frac{1}{4\cdot\frac{3}{4}}=\frac{1}{3},\qquad\pi^*=\frac{1}{4\cdot\frac{\sqrt3}{2}}=\frac{\sqrt3}{6}.\] \[x_1^*=\frac{1}{2}+\frac{1}{8\cdot\frac{3}{4}}=\frac{1}{2}+\frac{1}{6}=\frac{2}{3}\quad(\text{lazer}),\qquad x_2^*=f(z^*)=\left(\frac{1}{3}\right)^{1/2}=\frac{\sqrt3}{3}\quad(\text{consumo}).\]
- Verificação — Trabalho ofertado: \(1-\frac{2}{3}=\frac{1}{3}=z^*\) ✓. Renda: \(w^*+\pi^*=\frac{\sqrt3}{2}+\frac{\sqrt3}{6}=\frac{2\sqrt3}{3}\). Gasto: \(w^*x_1^*+x_2^*=\frac{\sqrt3}{2}\cdot\frac{2}{3}+\frac{\sqrt3}{3}=\frac{\sqrt3}{3}+\frac{\sqrt3}{3}=\frac{2\sqrt3}{3}\) ✓.
Interpretação: O consumidor dedica \(1/3\) do tempo ao trabalho e \(2/3\) ao lazer. O salário real \(w^*=\sqrt3/2\approx0{,}87\) iguala a produtividade marginal do trabalho em \(z^*\). O lucro \(\pi^*=\sqrt3/6\) reflete a renda gerada pela tecnologia decrescente de escala.
Em um arquipélago, cada ilha tem dois agentes \(i\in\{A,B\}\), dois bens físicos (gado G e maçãs M), \(S=3\) estados com \(\pi_1=1/2\), \(\pi_2=\pi_3=1/4\), e \(u_i=\ln x_G+\ln x_M\). Na ilha I, os mercados são completos (Arrow-Debreu). Na ilha III, os mercados são sequenciais e há três ativos financeiros com retornos (escalares, em unidades de um bem-numerário):
(a) Mostre que o mercado de ativos da ilha III é incompleto, identificando a dependência linear entre os ativos. [0,75 pt]
Gabarito (a)
- Construir R e testar rank — \(R=\begin{pmatrix}1&1&3\\1&2&5\\0&3&6\end{pmatrix}\). Para \(S=3\) estados, precisamos \(\text{posto}(R)=3\).
- Procurar dependência linear — Teste \(r_3=\alpha r_1+\beta r_2\): \[\begin{cases}\alpha+\beta=3\\\alpha+2\beta=5\\3\beta=6\end{cases}\;\Rightarrow\;\beta=2,\;\alpha=1.\] Verificação: \(1\cdot(1,1,0)+2\cdot(1,2,3)=(1,1,0)+(2,4,6)=(3,5,6)=r_3\) ✓.
- Concluir — \(r_3=r_1+2r_2\): o ativo 3 é redundante. As colunas de \(R\) são linearmente dependentes, logo \(\text{posto}(R)=2
incompleto.
(b) Que classe de transferências intertemporais a ilha III consegue implementar? Qual transferência simples é impossível? [0,75 pt]
Gabarito (b)
- Caracterizar o espaço de transferências atingíveis — Com apenas \(\{r_1,r_2\}\) gerando o espaço, um portfólio \((z_1,z_2)\) produz a transferência: \[t=z_1(1,1,0)+z_2(1,2,3)=(z_1+z_2,\;z_1+2z_2,\;3z_2).\] Parametrizando: \(t_3=3z_2\) e \(t_1=z_1+z_2=t_2-z_2=t_2-t_3/3\). Portanto a condição de atingibilidade é: \[3t_1-3t_2+t_3=0.\]
- Exemplo de transferência impossível — A transferência \(t=(1,-1,0)\) (mover riqueza do estado 2 para o estado 1, sem afetar o estado 3) viola a restrição: \(3(1)-3(-1)+0=6\neq0\). Portanto é impossível com os ativos disponíveis.
- Intuição — Os ativos da ilha III não permitem separar transferências entre os estados 1 e 2 sem afetar o estado 3. Qualquer ajuste entre estados 1 e 2 inevitavelmente altera o estado 3 de forma proporcional via \(r_2\).
(c) A alocação de consumo da ilha III coincide com a de Arrow-Debreu (ilha I)? Justifique formalmente e compare com a ilha II (que possui três ativos de Arrow). [0,5 pt]
Gabarito (c)
- Ilha II (ativos de Arrow) — Com \(r_1^{II}=(1,0,0)\), \(r_2^{II}=(0,1,0)\), \(r_3^{II}=(0,0,1)\): \(R^{II}=I_3\), \(\text{posto}=3=S\). Mercado completo. Pelo Teorema da Equivalência, a alocação da ilha II coincide com a de Arrow-Debreu. ✓
- Ilha III (mercado incompleto) — Com \(\text{posto}(R^{III})=2<3=S\), o espaço de transferências atingíveis é um subespaço bidimensional de \(\mathbb{R}^3\). Em geral, a alocação AD requer transferências em todas as três direções de \(\mathbb{R}^3\). Se a transferência ótima de equilíbrio AD não satisfizer \(3t_1-3t_2+t_3=0\), ela não é atingível na ilha III. A alocação da ilha III é, em geral, distinta da AD — os agentes não conseguem compartilhar completamente o risco agregado.
- Conclusão — Mesmo com \(K=S=3\) ativos, o mercado pode ser incompleto se os ativos forem linearmente dependentes. O número de ativos é condição necessária mas não suficiente para completude: o determinante é o posto da matriz \(R\).
Material elaborado com base em MWG caps. 15, 16 e 19 e no estilo de avaliação do PPGCE/UERJ (Prova P1, 2025). Para as demonstrações das Listas 1 e 2 (Lei de Walras e Eficiência Fraca com Transversalidade), consulte as seções 5.1–5.3.