Subgrafos Monocromáticos & Graphons COLMEA 2026  ·  UERJ  ·  Lucas Rafael de Andrade
Apostila de Divulgação Científica

Subgrafos Monocromáticos e os Limites de Grafos (Graphons)

O que acontece quando colorimos os vértices de uma rede enorme ao acaso e contamos quantas estruturas ficam “da mesma cor”? Uma viagem do problema do aniversário até os limites contínuos de grafos, baseada no artigo de Mauricio Daros Andrade & Bhaswar B. Bhattacharya (arXiv:2501.07821).

I

Colorindo redes aleatoriamente

O cenário: uma rede, um punhado de cores e muita sorte

Imagine uma rede qualquer: pessoas e amizades, computadores e cabos, proteínas e interações. Modele-a como um grafo $G_n$ com $n$ vértices, onde uma aresta liga dois vértices quando há uma relação entre eles. Agora faça o seguinte experimento: para cada vértice, sorteie independentemente uma cor entre $c$ cores disponíveis, todas com a mesma probabilidade $1/c$. Denote por $X_u$ a cor sorteada do vértice $u$.

Uma aresta é chamada monocromática quando suas duas pontas recebem a mesma cor. É como olhar para a rede colorida e perguntar: quantas conexões unem “iguais”? A resposta é um número aleatório, que os matemáticos escrevem assim:

$$T(K_2, G_n) = \frac{1}{2}\sum_{u \neq v} a_{uv}(G_n)\,\mathbf{1}\{X_u = X_v\}$$

Não se assuste com a fórmula: $a_{uv}(G_n)$ vale $1$ se existe aresta entre $u$ e $v$ e $0$ caso contrário (é a matriz de adjacência do grafo); o símbolo $\mathbf{1}\{X_u = X_v\}$ vale $1$ quando as cores coincidem e $0$ quando diferem. Somamos sobre todos os pares e dividimos por $2$ porque cada aresta foi contada duas vezes (uma na ordem $(u,v)$, outra na ordem $(v,u)$). O nome $T(K_2, G_n)$ vem do fato de que uma aresta é o grafo $K_2$: dois vértices ligados.

Definição

Contando cópias monocromáticas de um padrão $H$

Nada nos impede de procurar padrões maiores que uma aresta. Fixe um grafo pequeno $H$ — um triângulo ($K_3$), uma estrela, um ciclo — e conte quantas cópias de $H$ em $G_n$ ficaram inteiramente da mesma cor. Esse número é $T(H, G_n)$, o contador de subgrafos monocromáticos.

A primeira pergunta natural é: quanto esperamos contar, em média? A resposta é elegante:

$$\mathbb{E}\left[T(H, G_n)\right] = \frac{N(H, G_n)}{c^{\,|V(H)|-1}}$$

onde $N(H, G_n)$ é o número de cópias de $H$ no grafo $G_n$ (sem falar de cores) e $|V(H)|$ é o número de vértices de $H$. Em palavras: o valor esperado é o total de cópias vezes a probabilidade de uma cópia específica sair monocromática.

ⓘ Por que $c^{\,|V(H)|-1}$ e não $c^{\,|V(H)|}$? Para que $|V(H)|$ vértices tenham todos a mesma cor, não importa qual cor seja — só importa que coincidam. A cor do primeiro vértice é “de graça”: seja ela qual for, cada um dos outros $|V(H)|-1$ vértices precisa acertá-la, o que ocorre com probabilidade $1/c$ cada, de forma independente. Resultado: $(1/c)^{|V(H)|-1}$. Para uma aresta ($|V(H)|=2$), isso dá $1/c$; para um triângulo, $1/c^2$.
Teste rápido

Aquecimento: o valor esperado

Uma turma tem um grafo de amizades com $|E(G_n)| = 200$ arestas, e cada pessoa é colorida ao acaso com uma entre $c = 4$ camisetas. Quantas arestas monocromáticas (amigos com a mesma camiseta) esperamos ver?

A $800$ — cada aresta tem $4$ cores possíveis em cada ponta
B $50$ — cada aresta é monocromática com probabilidade $1/4$
C $12{,}5$ — a probabilidade seria $1/4^2 = 1/16$
Exato! $\mathbb{E}[T(K_2, G_n)] = |E(G_n)|/c = 200/4 = 50$. Dadas as cores das pontas, a chance de coincidirem é $1/c$ — não $1/c^2$, pois a cor da primeira ponta não precisa ser nenhuma cor específica.
Quase! A fórmula é $\mathbb{E}[T(K_2, G_n)] = |E(G_n)|/c$. A cor da primeira ponta é livre; só a segunda precisa combiná-la, com probabilidade $1/c = 1/4$. Logo $200/4 = 50$ arestas em média.

Saber a média é só o começo. A pergunta profunda — e o coração do artigo — é: como $T(H, G_n)$ flutua em torno da média quando a rede cresce? A resposta passa por três exemplos clássicos (Parte II), por uma nova noção de limite para grafos (Parte III) e por um teorema de distribuição limite surpreendente (Parte IV).


II

Por que isso importa? Três exemplos clássicos

Aniversários, testes estatísticos e ímãs de Ising

Contadores monocromáticos parecem uma curiosidade de salão, mas aparecem — disfarçados — em problemas que você provavelmente já conhece. Eis três deles, todos discutidos no artigo.

Ex. 1

O problema do aniversário

Considere o grafo de amizade de uma rede social e “colora” cada pessoa com o seu dia de aniversário: são $c = 365$ cores. Uma aresta monocromática é exatamente um par de amigos que fazem aniversário no mesmo dia. Assim,

$$\mathbb{P}\left(T(K_2, G_n) > 0\right)$$

é a probabilidade de haver alguma coincidência de aniversário entre amigos — uma variante do célebre problema do aniversário, que surpreende todo mundo: basta um grupo de 23 pessoas (no grafo completo $K_{23}$, onde todos se conhecem) para que a chance de coincidência passe de $50\%$.

A generalização é natural: multi-colisões, em que $r$ pessoas compartilham o mesmo aniversário, correspondem a cliques monocromáticos $T(K_r, G_n)$. E o assunto é sério: o artigo menciona aplicações em segurança de funções hash (uma “colisão de hash” é um aniversário repetido, e ataques de aniversário exploram exatamente isso), em testes de hipóteses para distribuições discretas e no estudo de coincidências em geral.

Ex. 2

Testes não-paramétricos de duas amostras baseados em grafos

Um problema clássico da estatística: observamos duas amostras e queremos testar

$$H_0:\; F = G \qquad \text{contra} \qquad H_1:\; F \neq G,$$

isto é, decidir se as duas amostras vêm da mesma distribuição, sem assumir que as distribuições têm algum formato conhecido (por isso “não-paramétrico”).

A estratégia baseada em grafos é engenhosa. Empilham-se as duas amostras em um único conjunto de pontos e constrói-se um grafo geométrico sobre eles, ligando pontos próximos — por exemplo a árvore geradora mínima do teste de Friedman–Rafsky, ou grafos de vizinhos mais próximos. Os rótulos das amostras (amostra 1 ou amostra 2) funcionam como cores: aqui $c = 2$.

  • H₀ Se as amostras vêm da mesma distribuição, os pontos das duas amostras estão bem misturados no espaço: arestas ligam frequentemente pontos de amostras diferentes, e há poucas arestas monocromáticas.
  • H₁ Se as distribuições diferem, cada amostra ocupa sua própria região: pontos próximos tendem a vir da mesma amostra, as arestas “bicolores” ficam raras e as arestas monocromáticas abundam.

Logo, rejeita-se $H_0$ quando $T(K_2, G_n)$ é grande demais. E para calibrar o que é “grande demais”, é preciso entender a distribuição nula de $T(K_2, G_n)$ — ou seja, estudar exatamente o contador monocromático com $c = 2$ que definimos na Parte I. Teoria de grafos aleatórios coloridos a serviço da estatística.

Teste rápido

Intuição do teste de Friedman–Rafsky

No grafo geométrico construído sobre a amostra combinada, observamos um número muito alto de arestas monocromáticas (ligando pontos da mesma amostra). O que isso sugere?

A Que $H_0$ deve ser aceita: as amostras estão perfeitamente misturadas
B Que $H_0$ deve ser rejeitada: as amostras ocupam regiões diferentes do espaço
C Nada: o número de arestas monocromáticas não depende das distribuições
Correto! Sob $H_1$, pontos próximos tendem a vir da mesma amostra, gerando muitas arestas monocromáticas e poucas arestas “cruzadas”. Um $T(K_2, G_n)$ grande demais (acima do que a distribuição nula prevê) é evidência contra $H_0$.
Não é bem assim. Se as amostras viessem da mesma distribuição, elas estariam misturadas e veríamos muitas arestas ligando amostras diferentes. Excesso de arestas monocromáticas indica segregação — evidência de que $F \neq G$.
Ex. 3

Caos quadrático de Rademacher e o modelo de Ising

No caso de duas cores ($c = 2$), troque os rótulos de cor por variáveis $Y_u \in \{-1, +1\}$ independentes com $\mathbb{P}(Y_u = 1) = \mathbb{P}(Y_u = -1) = 1/2$ — as chamadas variáveis de Rademacher. Um truque algébrico simpático, $\mathbf{1}\{X_u = X_v\} = \tfrac{1}{2}(1 + Y_u Y_v)$, revela uma identidade surpreendente:

$$T(K_2, G_n) - \mathbb{E}\left[T(K_2, G_n)\right] \;=\; \frac{1}{4}\sum_{u \neq v} a_{uv}(G_n)\, Y_u Y_v$$

Do lado direito temos uma forma quadrática aleatória — um “caos quadrático de Rademacher”. Estruturas idênticas aparecem em vários lugares:

  • Física O Hamiltoniano do modelo de Ising — o modelo clássico de magnetismo, em que “spins” $\pm 1$ interagem ao longo das arestas de uma rede — tem exatamente a forma $\sum_{u,v} a_{uv}\, Y_u Y_v$.
  • Comb. A teoria de Ramsey estuda justamente subestruturas monocromáticas inevitáveis em colorações de grafos.
  • Estat. Formas quadráticas desse tipo aparecem em testes de independência e no estudo de esquemas de urna e estatísticas de coincidência.

Moral da história: entender as flutuações de $T(H, G_n)$ é entender um objeto que a física, a combinatória e a estatística já encontraram, cada uma por seu caminho.


III

O limite dos grafos: graphons

Apertando os olhos para uma matriz de adjacência infinita

Para entender o que acontece com $T(H, G_n)$ quando $n \to \infty$, precisamos primeiro responder a uma pergunta mais básica: o que significa uma sequência de grafos convergir?

Pense na matriz de adjacência de um grafo como uma imagem de pixels: um quadradinho claro na posição $(i, j)$ se existe aresta entre $i$ e $j$, escuro caso contrário. À medida que $n$ cresce, os quadradinhos ficam cada vez menores. Se você “apertar os olhos”, o mosaico de pixels se funde em uma imagem contínua com tons de cinza — como uma foto vista de longe. Esse objeto contínuo é o graphon (de graph + function).

Definição

Graphon e graphon empírico

Um graphon é uma função simétrica e mensurável

$$W: [0,1]^2 \to [0,1], \qquad W(x,y) = W(y,x),$$

em que $W(x,y)$ se interpreta como a probabilidade de conexão entre os “pontos” $x$ e $y$. O intervalo $[0,1]$ representa o “continuum” de vértices no limite $n \to \infty$.

O caminho de volta, do discreto ao contínuo, é feito pelo graphon empírico $W^{G_n}$: divide-se o quadrado $[0,1]^2$ em $n^2$ quadradinhos de lado $1/n$ e atribui-se ao quadradinho $(i,j)$ o valor $1$ se $(i,j)$ é aresta de $G_n$ e $0$ caso contrário. É exatamente a matriz de adjacência desenhada como uma função escada — a “imagem de pixels” da nossa analogia.

ⓘ Por que valores em $[0,1]$? Porque $W(x,y)$ é uma probabilidade. Um graphon constante $W \equiv p$ corresponde ao limite dos grafos aleatórios de Erdős–Rényi $G(n,p)$: qualquer par de vértices se conecta com probabilidade $p$, sem estrutura alguma. Graphons não-constantes capturam estrutura: comunidades, hierarquias, geometria.
Simulação

Da matriz de adjacência ao graphon

Escolha um graphon $W$ abaixo. O painel da direita mostra $W$ como uma imagem contínua (tons dourados = maior probabilidade de conexão). O painel da esquerda mostra a matriz de adjacência de um grafo aleatório de $n$ vértices gerado a partir de $W$: o vértice $i$ “vive” na posição $x_i = (i-\tfrac12)/n$ e cada par $(i,j)$ se conecta, independentemente, com probabilidade $W(x_i, x_j)$. Arraste o slider e veja a imagem discreta convergir para o graphon.

$n$ (vértices) 40
matriz de adjacência amostrada ($n \times n$ pixels)
o graphon $W(x,y)$ (limite contínuo)
arestas observadas
—
arestas esperadas
—

No graphon de blocos, vértices do mesmo bloco se conectam com probabilidade $0{,}8$ e de blocos diferentes com probabilidade $0{,}1$ — o retrato de uma rede com comunidades. Note como o ruído da amostragem vai desaparecendo conforme $n$ cresce: é a lei dos grandes números em ação, pixel a pixel.

De volta à teoria: como formalizar a ideia de que $G_n$ “se aproxima” de $W$? A resposta usa contagens de padrões — os mesmos padrões da Parte I, agora sem cores.

Definição

Densidades de homomorfismo

Para um grafo pequeno $F$ (digamos, um triângulo), a densidade de homomorfismo $t(F, G)$ mede a frequência com que $F$ aparece em $G$: é a probabilidade de que um mapa aleatório dos vértices de $F$ para os vértices de $G$ envie cada aresta de $F$ em uma aresta de $G$. No mundo contínuo, a soma vira integral:

$$t(F, W) \;=\; \int_{[0,1]^{|V(F)|}} \prod_{(i,j)\,\in\, E(F)} W(x_i, x_j)\; dx_1 \cdots dx_{|V(F)|}$$

O exemplo a se guardar é o triângulo $F = K_3$: o produto sobre as arestas tem três fatores, e a fórmula vira a integral tripla

$$t(K_3, W) \;=\; \int_0^1\!\!\int_0^1\!\!\int_0^1 W(x,y)\,W(y,z)\,W(x,z)\; dx\,dy\,dz$$

Leia assim: sorteie três pontos $x, y, z$ uniformemente em $[0,1]$; a integral é a probabilidade de que todas as três conexões do triângulo se realizem. Cada fator $W$ cuida de uma aresta.

ⓘ Sanity check: se $W \equiv p$ é constante (o limite de Erdős–Rényi), o produto sai da integral e obtemos $t(K_3, W) = p^3$ — exatamente a probabilidade de três vértices formarem um triângulo no $G(n,p)$. As fórmulas contínuas reproduzem a intuição discreta.
Teorema

Convergência e a distância de corte (Lovász–Szegedy)

Dizemos que $G_n$ converge para $W$ quando as densidades de todos os padrões finitos se estabilizam:

$$G_n \to W \quad \Longleftrightarrow \quad t(F, G_n) \to t(F, W) \;\; \text{para todo grafo finito } F$$

A teoria dos limites de grafos, desenvolvida por Lovász, Szegedy e colaboradores, mostra que essa noção equivale a ser uma sequência de Cauchy na distância de corte, definida a partir da norma de corte:

$$\|W\|_{\square} \;=\; \sup_{A,\, B \,\subseteq\, [0,1]} \left| \int_{A \times B} W(x,y)\, dx\, dy \right|$$

A intuição é a de um fiscal de densidades: escolha qualquer bloco de vértices $A$ e qualquer bloco $B$ e meça a massa de conexões entre eles. A norma de corte é a pior discrepância possível entre blocos. Se dois graphons estão próximos nessa norma, nenhum teste do tipo “compare a densidade entre estes dois grupos” consegue distingui-los. (Tecnicamente, a distância de corte $\delta_\square$ ainda permite reetiquetar os vértices, ou seja, aplicar uma permutação de $[0,1]$ que preserve medida — o grafo limite não depende da ordem em que listamos os vértices.)


IV

O teorema central: o que acontece com $T(H, G_n)$ quando $n \to \infty$

Nem sempre Gaussiana: um limite com duas personalidades

Temos o cenário (Parte I), as motivações (Parte II) e a linguagem dos limites (Parte III). Agora a pergunta de um milhão de dólares: se $G_n$ é uma sequência de grafos densos que converge para um graphon $W$, qual é a distribuição limite das flutuações de $T(H, G_n)$?

Pelo teorema central do limite clássico, esperaríamos uma Gaussiana. Afinal, $T(H, G_n)$ é uma soma de muitas parcelas. Mas há um detalhe: as parcelas não são independentes — duas cópias de $H$ que dividem um vértice têm cores correlacionadas. E essa dependência muda tudo.

Resultado

Um limite com duas componentes independentes

Em grafos densos, $T(H, G_n)$ centrado e devidamente normalizado não converge, em geral, para uma Gaussiana. O limite é a soma de duas componentes independentes:

  • (i) uma variável Gaussiana $Z$, que herda as flutuações “lineares” — grosso modo, o efeito de cada vértice individualmente através do seu grau;
  • (ii) uma soma de variáveis qui-quadrado (centradas), que pode ser escrita como uma integral estocástica de Wiener–Itô dupla $$\int_{[0,1]^2} W_H(x,y)\, dB_x\, dB_y,$$ em que $(B_x)_{x \in [0,1]}$ é um movimento Browniano e os pesos vêm do espectro do kernel condicional de 2 pontos $W_H$, um operador construído a partir do graphon limite $W$ e do padrão $H$.

Mais precisamente: se $\lambda_1 \geq \lambda_2 \geq \cdots$ são os autovalores do operador integral associado a $W_H$, a segunda componente tem a forma $\sum_{k \geq 1} \lambda_k\, (\xi_k^2 - 1)$, com $\xi_k$ Gaussianas padrão independentes. Cada $\xi_k^2$ é uma qui-quadrado com 1 grau de liberdade — daí o nome.

Para o caso mais simples, $H = K_2$ (arestas monocromáticas), o kernel é apenas o próprio graphon (vezes dois):

$$W_{K_2}(x,y) \;=\; 2\,W(x,y)$$

Quando a componente Gaussiana domina, o limite é normal; quando os autovalores $\lambda_k$ são relevantes, a cauda qui-quadrado aparece e o limite fica assimétrico, com cauda pesada à direita — nada parecido com o sino da Gaussiana.

Fenômeno

O critério do quarto momento

Como decidir, na prática, se o limite é Gaussiano? Há um critério notavelmente simples, na linha do chamado fenômeno do quarto momento: normalizando $T(K_2, G_n)$ para ter média $0$ e variância $1$,

$$T(K_2, G_n) \text{ é assintoticamente normal } \;\Longleftrightarrow\; \mathbb{E}\left[\,\widehat{T}(K_2, G_n)^4\,\right] \to 3$$

onde $\widehat{T}$ denota a versão padronizada. O número $3$ não é mágico: é o quarto momento de uma Gaussiana padrão, $\mathbb{E}[Z^4] = 3$. Se o quarto momento converge para $3$, o limite só pode ser Gaussiano; se converge para algo maior, há componente qui-quadrado no limite.

ⓘ Por que o quarto momento basta? Intuitivamente, a componente qui-quadrado é construída de quadrados de Gaussianas, e quadrados têm quarto momento inflado: $\mathbb{E}[\xi^4] = 3$, mas uma qui-quadrado centrada $\xi^2 - 1$ tem quarto momento $60$. Qualquer presença desses quadrados “vaza” para o quarto momento total, delatando a não-normalidade. Resultados desse tipo (Nualart–Peccati, em espaços de caos Gaussiano) são uma ferramenta poderosa da probabilidade moderna.
Artigo

A novidade: redes multiplex

O artigo de Andrade & Bhattacharya dá um passo além: em vez de uma única rede, considera várias camadas de grafos sobre os mesmos vértices — uma rede multiplex. Pense nas mesmas pessoas conectadas simultaneamente por laços de amizade, de trabalho e de família: três camadas, um único conjunto de vértices, uma única coloração aleatória compartilhada por todas as camadas.

Como as cores são as mesmas em todas as camadas, os contadores monocromáticos $T(H_1, G_n^{(1)}), T(H_2, G_n^{(2)}), \ldots$ de camadas diferentes são dependentes. A contribuição central do artigo é derivar a distribuição limite conjunta desses contadores, provando convergência em uma métrica de corte conjunta (várias camadas vistas como um único objeto). O limite tem a forma:

  • Z uma Gaussiana multivariada, independente da outra componente, cuja matriz de covariância codifica as sobreposições entre camadas;
  • $\chi^2$ uma soma de integrais estocásticas bivariadas — mas todas tomadas em relação ao mesmo movimento Browniano $(B_x)$. É esse compartilhamento do ruído que captura a dependência entre as camadas: as flutuações quadráticas de todas as camadas “ouvem” o mesmo Browniano, porque a coloração aleatória é a mesma para todas.
Prova

O ingrediente-chave: o princípio de invariância

Como se prova um teorema desses? A estratégia, explicada por alto, tem dois movimentos:

  • 1. Princípio de invariância: as variáveis de cor $X_u$ (discretas, uniformes em $c$ cores) podem ser substituídas por variáveis Gaussianas com a mesma média, variância e covariância, sem alterar a distribuição limite. É uma versão sofisticada do teorema central do limite: no limite, só os dois primeiros momentos importam, então podemos trocar uma distribuição complicada por uma conveniente. (É a mesma filosofia por trás do método de Lindeberg e dos “universality principles” em matrizes aleatórias.)
  • 2. Só o quadrático sobrevive: depois da troca, expande-se o contador em “caos” de ordens crescentes — termos lineares, quadráticos, cúbicos etc. Na escala densa, os termos de ordem $\geq 3$ se tornam desprezíveis após a normalização, e restam apenas o termo linear (que vira a Gaussiana $Z$) e o quadrático (que vira a soma de qui-quadrados / integral de Wiener–Itô).

É por isso que o limite tem exatamente duas personalidades: uma linear (Gaussiana) e uma quadrática (qui-quadrado). A estrutura do graphon $W$ e do padrão $H$ determinam, via kernel $W_H$, o peso de cada uma.


V

Aplicação: graph matching e redes multiplex correlacionadas

Quando duas redes são, secretamente, a mesma rede

Para ilustrar a força da teoria, o artigo discute o multiplex de Erdős–Rényi correlacionado: duas (ou mais) camadas em que cada aresta aparece de forma correlacionada entre camadas — como duas fotos ruidosas da mesma rede subjacente.

Esse modelo é o banco de provas natural do problema de graph matching: dadas duas redes observadas, descobrir se elas são “a mesma” rede com os vértices permutados — e, em caso afirmativo, recuperar a permutação. Não é curiosidade acadêmica: é a matemática por trás da desanonimização de redes sociais (cruzar uma rede anônima com uma rede pública para reidentificar usuários) e de problemas de visão computacional (casar pontos entre duas imagens do mesmo objeto).

Onde entram os contadores monocromáticos? As estatísticas monocromáticas conjuntas — que contam, simultaneamente em várias camadas, padrões da mesma cor — funcionam como impressões digitais da correlação entre camadas. O teorema limite conjunto da Parte IV diz exatamente como essas estatísticas flutuam e como se correlacionam, permitindo construir testes para detectar correlação entre camadas e quantificá-la com garantias assintóticas.

Fim

Para saber mais

  • Art. M. D. Andrade & B. B. Bhattacharya, Monochromatic Subgraphs in Randomly Colored Dense Multiplex Networks, arXiv:2501.07821 (2025) — o artigo que inspirou esta apostila.
  • Livro L. Lovász, Large Networks and Graph Limits, AMS Colloquium Publications (2012) — a referência clássica sobre graphons, densidades de homomorfismo e a distância de corte.

Boa leitura — e da próxima vez que dois amigos fizerem aniversário no mesmo dia, lembre-se: você acabou de observar um subgrafo monocromático.